Primeiro Encontro

(2025) ‧ 1h37

"Primeiro Encontro": Entre o dito e o pensado

Felipe Fornari

Primeiro Encontro parte de uma premissa simples — duas pessoas tentando causar uma boa impressão — para escancarar algo muito mais complexo: o caos silencioso que habita nossas cabeças. Paolo Genovese transforma uma primeira saída entre Lara e Piero em um campo minado emocional, onde cada gesto, silêncio e sorriso é disputado por versões internas que nem sempre querem a mesma coisa. O resultado é uma comédia romântica que brinca com a verdade social do gênero sem recorrer aos clichês mais óbvios.

Assim como em Perfeitos Desconhecidos, que ganha um remake brasileiro no mesmo dia em que Primeiro Encontro estreia no Brasil, o diretor se apoia em um dispositivo engenhoso para tensionar relações e expor fragilidades, mas aqui o jogo acontece para dentro. Em vez de segredos revelados por celulares, são pensamentos cruzados, impulsos censurados e medos amplificados que conduzem a narrativa. A dinâmica é leve e espirituosa, mas está sempre carregada daquela ansiedade familiar a qualquer um que já precisou “parecer normal” enquanto tudo desmoronava por dentro.

A comparação com Divertida Mente surge quase inevitável, e Genovese parece se divertir com ela. As vozes internas de Lara e Piero assumem identidades claras — a paixão, a razão, o medo, a insegurança — e disputam um comando que jamais é definitivo. Esse artifício rende diálogos afiados que contrastam o que se pensa e o que se diz, criando situações tão desconfortáveis quanto deliciosas. É um filme sobre a mente que não se desconecta nem quando só quer relaxar e ver onde a noite vai dar.

O humor funciona porque nasce de algo real: a dificuldade de recomeçar depois de decepções, a pressão para corresponder a expectativas e o terror absoluto das primeiras impressões. Entre risos, a narrativa encontra espaço para temas sensíveis como solidão, vulnerabilidade e a diferença entre o que queremos e o que achamos que devemos querer. Talvez, sugere o filme, viver seria mais simples se déssemos menos palco às nossas próprias vozes internas — e ainda assim, é impossível não reconhecê-las.

Mesmo com tantos personagens conversando simultaneamente dentro da cabeça dos protagonistas, a encenação mantém tudo organizado e fluido. A única locação principal reforça a sensação quase teatral do projeto, mas o ritmo nunca se perde. O caos é cuidadosamente controlado e, embora possa soar exaustivo em teoria, na prática permanece acessível e divertido, sem afastar o público.

O elenco abraça o conceito com convicção. Edoardo Leo e Pilar Fogliati constroem uma química que depende menos do flerte explícito e mais das pequenas hesitações, enquanto o conjunto de “eus” internos dá personalidade à experiência — ainda que propositalmente estereotipados. Cada voz tem uma função narrativa clara, e esse equilíbrio impede que a proposta se torne apenas um truque estilístico.

No fim, Primeiro Encontro entrega uma comédia romântica inventiva, que encontra frescor onde tantas outras apenas repetem fórmulas. Genovese não reinventa o gênero, mas observa com carinho — e ironia — a batalha silenciosa que todos travamos antes mesmo de decidir se vale a pena dar o segundo passo. É engraçado, é honesto e, sobretudo, muito humano.

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