Rabia: As Esposas do Estado Islâmico

Onde assistir
Entre a fé e a violência: As cicatrizes invisíveis de "Rabia"

Rabia: As Esposas do Estado Islâmico foi exibido na abertura da 2ª edição do Festival Filmes Incríveis, criado pelo Belas Artes Grupo em São Paulo.

O filme, baseado em fatos reais, é a primeira produção da diretora, Mareike Engelhardt e a primeira protagonista da atriz Megan Northam (Jessica), com destaque também para Lubna Azabal (Laila).

Coragem para filmar e sensibilidade para denunciar a seguinte situação: desde 2013, mais de 42 mil pessoas, em sua maioria mulheres, foram recrutadas pelo Estado Islâmico (IA). O objetivo é que mulheres de todas as partes do mundo ao tornarem esposas dos membros do exército, possam aumentar sua população e seu legado. Em torno de 25 mil crianças já nasceram no território da Síria, segundo estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU).

O filme conta a história dessas mulheres.

Uma pergunta se torna inevitável: quais os motivos que levam jovens mulheres a fazer parte do regime totalitário djihadista? No caso de Jessica e Laila, elas resolvem dividir o mesmo caminho, porém não imaginavam o nível de violência a que estariam submetidas. Existe um aspecto pouco explorado, o papel das redes sociais como um mecanismo de recrutamento dessas jovens e a sua eventual e necessária responsabilização.

O filme se passa quase que integralmente em uma única locação, a casa que recebe e hospeda às futuras mulheres dos membros do EI. Sua administração fica sob a responsabilidade de uma mulher, uma verdadeira líder autoritária, violenta e carismática, conhecida como Madame. Nesse ambiente escuro, sombrio, opressivo e controlador, se desenvolve o roteiro, através das subjetividades, trajetórias, expectativas e sonhos frustrados, de cada uma daquelas mulheres.

No caso da protagonista, Jessica é uma jovem francesa de apenas 19 anos que trabalha em um hospital e vive com o seu pai, em um contexto de profunda invisibilidade social. Esse é o real motivo que faz uma jovem abandonar sua vida e mergulhar em uma viagem sem volta: “ninguém me enxerga e não sou respeitada, pois eu sou tratada como lixo”.

Dois elementos se tornam o fio condutor de toda narrativa: a violência e a religião, reconhecidos como elementos de convívio e sociabilidade. Tudo se justifica em nome de algo maior, o culto e o respeito ao deus maior. Para a protagonista, entre romper e resistir, o caminho encontrado foi o da resiliência, alienação e persistência, no qual a tomada de consciência e o fim da cegueira, só foram possíveis, diante de uma tragédia inesperada e profundamente traumática.

A diretora nos leva a questionar os limites do uso e da propagação da violência, quando ocorre a transferência dos papéis, de torturada a torturadora, de oprimida a opressora, de vítima a algoz das suas próprias escolhas e que irão definir os rumos de toda uma coletividade.

Na busca por relativizar toda a violência pela qual é submetida, Jessica reafirma o compromisso com sua amiga Laila, “vamos fazer história”. No entanto, a história já estava traçada e o desfecho é inevitável. Ao final, o que resta é a perplexidade e o sentido de alteridade, diante das tentativas de resgate fracassadas, seja pela política externa dos governos de origem, ou pela recusa das mães de deixarem o território sírio.

Jessica sai da França em busca de reconhecimento e visibilidade, mas torna-se refém do abandono e do silenciamento de uma política global que não reconhece suas existências, como se fosse possível promover um apagamento sistemático de suas memorias. Filme necessário, pertinente e que nos convoca a deixar de naturalizar as violações sistemáticas de direitos humanos contra mulheres.

Você também pode gostar...