Resenha │ Destemida

13.01.2017 │ 09:57

Ao som de Stooges e Pixies, com o cabelo esvoaçante e um belo batom vermelho, Lina é uma jovem – entre a adolescência e a idade adulta – cativante que nos guia pelas suas aventuras, de quase dois anos, como estudante libanesa em Paris. Destemida, dirigido por Danielle Arbid com roteiro de Julie Peyer, é um um passeio pelas ruas e situações corriqueiras de Paris, ao lado de uma garota que não tem medo de nada e é instigada a viver a sua liberdade.
O escritor americano Jack Kerouac, em seu clássico On The Road, disse sobre as pessoas que gostava de conviver naquela efervescência dos anos de 1940, em Nova Iorque “e eu me arrastava na mesma direção como tenho feito toda minha vida, sempre rastejando atrás de pessoas que me interessam, porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora (…)”. Isso define bem Lina (Manal Issa) que saiu do Líbano no começo dos anos 90, a fim de não apenas se libertar da família mas também viver a sua adolescência de forma plena. Paris, nessa época, não era um lugar tranquilo, a extrema-direita começava a despontar e as leis de imigração se tornavam mais rígidas. A protagonista já começa a enfrentar os problemas de ser mulher e imigrante logo no começo, mas de forma alguma se vê compelida a desistir, ela realmente quer estar perto das pessoas loucas para viver e acima de tudo, quer olhar para o seu futuro.

A protagonista sempre olha para a frente, quase nunca para o passado. São raras as passagens em que Lina precisa recorrer ao Líbano, seus conflitos e à família. Por ter um olhar muito próximo – vale ressaltar que o longa tem uma porcentagem autobiográfica – Danielle e Julie não constróem a personagem sob uma visão vitimista e costumeira que se tem sobre imigrantes. Destemida é mais sobre a educação sentimental de uma adolescente, mas diferente de algo que pudesse remeter ao século XIX, onde esse rito de passagem das mulheres era focado apenas em relacionamentos, aqui a garota precisa sobreviver em Paris. Precisa ser aceita como uma outra na Europa, estudar arte, encontrar suas inclinações políticas e se sentir pertencente do espaço geográfico. Os relacionamentos apenas vêm junto com toda essa transição e descoberta.

Logo no começo de Destemida, Lina, ao ser assediada pelo tio com quem moraria em Paris, age com repulsa e foge da casa. Já sabemos que não estamos diante de qualquer personagem, ela até pode sofrer as agruras da vida mas, de forma alguma, irá aceitar as coisas como são. O começo dos anos 90 é tumultuado na Europa, as discussões sobre imigrações já fazem parte dos discursos políticos e Lina enfrenta preconceitos, mas também encontra paradoxos, como por exemplo ser ajudada por um casal de jovens neonazistas. Os personagens são repletos dessas peculiaridades humanas do dia a dia, nada é previsível na sua jornada e esse é um dos pontos que mantém o espectador intensamente conectado à narrativa e à protagonista.
A liberdade com que Lina flana por Paris e pelos relacionamentos é retratada de forma muito bonita em Destemida. Danielle Arbid a coloca como uma jovem no centro de sua própria vida, nunca como apenas uma história contada em detrimento da existência de outros, ela tem as rédeas e sabe o que quer. Outro ponto interessante é que nunca somos levados a julgar Lina, estamos com ela, andando ao seu lado. O longa lembra alguns aspectos da narrativa da iraniana Marjane Satrapi em Persépolis, que fica entre a crítica social e a forma divertida de enxergar a vida e narrar as próprias experiências de se tornar adulto em outra cultura e país.

A empatia com a protagonista é muito bem resolvida pela atuação de Massal Issa, atriz libanesa muito elogiada pela diretora. Ela empresta um olhar real de descoberta e se entrega muito bem às situações que vão se apresentando ao longo do tempo. Como bem define Arbid, é um filme sobre uma adolescente querendo viver a vida do seu jeito, assim como qualquer garota da sua idade, independente de onde cresceu. As questões de imigração e situação social são externas, obviamente afetam a vida de Lina mas não moldam seus conflitos internos. Destemida é um filme bastante maduro sobre a transição para a idade adulta, os períodos de deslocamento e busca de locais para se pertencer em um mundo repleto de muros, onde não temer está inscrito em suas paredes.
Nota:

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Destemida

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