Sabotador

(1942) ‧ 1h49

Uma conspiração atravessa a América

Felipe Fornari

Em Sabotador, Alfred Hitchcock recupera uma de suas estruturas narrativas favoritas e a transporta para uma América em estado de alerta durante a Segunda Guerra Mundial. Barry Kane é um operário de uma fábrica de aviões que presencia um incêndio responsável pela morte de seu melhor amigo. As evidências apontam para ele como responsável pela sabotagem, especialmente depois que o extintor entregue ao colega revela conter gasolina. Convencido de que um homem chamado Frank Fry provocou o desastre, Barry foge das autoridades e atravessa o país em busca daquele que poderá provar sua inocência, descobrindo pelo caminho uma rede de conspiradores infiltrada em diferentes setores da sociedade americana.

A aproximação com 39 Degraus é inevitável. Mais uma vez, temos um homem comum acusado injustamente, obrigado a escapar simultaneamente da polícia e dos verdadeiros criminosos enquanto tenta desmontar uma conspiração muito maior do que imaginava. Robert Cummings interpreta Barry com simpatia suficiente para conduzir a aventura, embora não possua o magnetismo de Robert Donat naquele filme. Seu personagem também recebe pouco desenvolvimento além da necessidade de provar a própria inocência. Hitchcock está claramente mais interessado no movimento da narrativa do que na psicologia de seu protagonista, fazendo com que cada encontro funcione como uma nova etapa da perseguição.

É justamente nesse percurso que Sabotador encontra algumas de suas melhores ideias. Os conspiradores não são apresentados como figuras imediatamente ameaçadoras escondidas em lugares obscuros, mas como cidadãos aparentemente respeitáveis. Charles Tobin recebe Barry tranquilamente em sua propriedade, enquanto outros integrantes da organização circulam entre pessoas ricas e influentes. O perigo vem de dentro da própria sociedade, escondido sob uma aparência de normalidade. Realizado em plena guerra, o filme assume abertamente uma dimensão política ao sugerir que a ameaça fascista pode prosperar justamente porque seus representantes sabem parecer cidadãos acima de qualquer suspeita.

Priscilla Lane entra na história como Pat Martin, inicialmente convencida da culpa de Barry e determinada a entregá-lo à polícia. A desconfiança gradualmente dá lugar à cumplicidade conforme ela percebe as inconsistências da acusação e presencia evidências da conspiração. O romance entre os dois é funcional, mas menos envolvente do que outros casais formados durante fugas hitchcockianas. Muito mais memorável é o encontro com uma caravana de artistas circenses, sequência simultaneamente engraçada e afetuosa na qual aqueles que vivem à margem demonstram maior disposição para ouvir Barry do que as instituições encarregadas de determinar sua culpa.

Essa inversão percorre todo o filme. As autoridades quase sempre interpretam as evidências da maneira mais conveniente, enquanto Barry precisa infringir a lei justamente para impedir crimes contra o país. Hitchcock encontra uma contradição particularmente interessante nessa situação: o cidadão acusado de traição torna-se aquele que mais desesperadamente tenta proteger a sociedade, enquanto os verdadeiros sabotadores desfrutam de prestígio e liberdade. O roteiro nem sempre explora profundamente essas ideias, preferindo avançar rapidamente para outra perseguição, mas elas dão à aventura uma dimensão que ultrapassa sua função evidente como entretenimento e propaganda de guerra.

A sucessão de acontecimentos cresce em escala até transformar pontos reconhecíveis de Nova York em cenários de suspense. Depois de uma tentativa de sabotagem durante o lançamento de um navio e de uma fuga pelo Radio City Music Hall, Hitchcock conduz os personagens à Estátua da Liberdade para uma das sequências mais célebres de sua carreira. Frank Fry termina pendurado no monumento enquanto Barry, ironicamente, tenta salvar o homem responsável por sua desgraça. A costura da manga que lentamente começa a se romper funciona como uma contagem regressiva visual: não precisamos de diálogos para compreender que cada segundo aproxima o sabotador da queda.

Sabotador não possui a mesma riqueza de personagens ou a precisão narrativa dos melhores trabalhos de Hitchcock, mas permanece uma aventura extremamente eficiente e historicamente reveladora. Sua combinação de perseguição nacional, identidade equivocada, romance e monumentos transformados em espaços de perigo antecipa claramente Intriga Internacional, que levaria essa fórmula a resultados ainda mais extraordinários. Aqui, porém, existe a urgência específica de uma América recém-envolvida na guerra, fazendo da busca de Barry pela própria inocência também uma batalha contra inimigos escondidos dentro do país. Mesmo quando a propaganda se torna evidente, Hitchcock nunca esquece sua principal missão: manter o espectador em movimento junto com seu protagonista até colocá-lo, literalmente, à beira do abismo.

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