Em Predador: Terras Selvagens, o diretor Dan Trachtenberg expande o universo da franquia com uma ousadia rara em sagas de ação e ficção científica. Depois de revisitar o passado com O Predador: A Caçada, o cineasta mira o futuro — e o espaço — para contar uma história de redenção, parceria improvável e sobrevivência em um mundo hostil. Desta vez, o monstro icônico dos anos 1980 ganha uma nova perspectiva: a de herói.
O protagonista, Dek (Dimitrius Schuster-Koloamatangi), é um jovem predador desprezado por seu próprio clã e enviado a um planeta mortal como parte de um ritual de passagem. O cenário — uma terra onde tudo pode matar — serve como metáfora para sua luta por respeito e aceitação. Trachtenberg usa o conceito para explorar o que significa ser digno dentro de uma cultura que glorifica a força e despreza a empatia.

A narrativa ganha força quando Dek cruza o caminho de Thia (Elle Fanning), uma ciborgue que perdeu parte do corpo, mas não a determinação. A improvável aliança entre eles — um caçador alienígena e uma máquina de aparência frágil — rende alguns dos momentos mais humanos do filme. A dinâmica entre os dois é espirituosa e sincera, e a química entre os intérpretes ajuda a transformar o que poderia soar absurdo em algo genuinamente cativante.
Visualmente, Predador: Terras Selvagens é vibrante, ainda que irregular. As criaturas, plantas e texturas do novo planeta são inventivas, e Trachtenberg brinca com a paleta de cores e com a biologia alienígena de modo quase lúdico. Ainda assim, o excesso de efeitos digitais em alguns trechos reduz um pouco o impacto visual, especialmente quando as cenas de ação se tornam mais grandiosas do que necessárias.
A direção, porém, mantém o pulso firme, equilibrando humor, aventura e brutalidade. O filme nunca esquece suas raízes de ação sangrenta — ainda que o sangue agora seja branco — e sabe rir de si mesmo sem perder o respeito pela mitologia que carrega. Há ecos de Guardiões da Galáxia na forma como o longa transforma um grupo de desajustados em uma equipe unida pela sobrevivência e pelo afeto improvável.

O roteiro evita a repetição ao inverter a perspectiva: ao colocar o predador como protagonista, a franquia revisita seus próprios temas — o medo, o instinto, o código de honra — com um olhar mais empático e até poético. A jornada de Dek e Thia, apesar de ambientada em meio a explosões e monstros, é essencialmente sobre a busca por pertencimento.
Trachtenberg entrega, assim, um capítulo surpreendentemente caloroso e inventivo de uma série marcada por testosterona e caça. Predador: Terras Selvagens é um espetáculo divertido e cheio de energia, que encontra humanidade até mesmo sob uma máscara alienígena. Um lembrete de que, em qualquer planeta, até os monstros têm coração.












