Salvação

(2026) ‧ 1h57

“Salvação” é um longa complexo que se utiliza da micro-história turca para tratar das atrocidades perpetradas em vários cantos do mundo

Emanuela Siqueira

Filme assistido durante o 15º Olhar de Cinema.

Antes de mais nada, Salvação, do diretor turco Emin Alper, é um filme perigoso, assim como foram as falas de Wim Wenders, na abertura da 76ª edição do Festival de Berlim, onde presidiu o júri que deu o prêmio ao filme. É emblemático que o longa tenha saído vencedor justamente por trazer algo tão político contado da perspectiva da micro-história turca. Porém, um dos perigos está justamente no olhar ocidental que podemos oferecer numa primeira visada do filme, por se tratar de um conflito histórico entre duas comunidades em uma região curda.

No sentido que perigoso significa um terreno arriscado, e que mesmo assim vale a pena ser atravessado, Salvação é uma investigação de como uma guerra, um genocídio, começa com situações aparentemente banais. Na coletiva de imprensa, em Berlim, em fevereiro deste ano, Alper disse que “a história da humanidade é repleta de atrocidades”, apesar de ele retratar uma muito particular de seu país. Mas, será que conseguimos enxergar isso com os olhos do ocidente, já ungidos de preconceitos sobre as histórias árabes? Realmente, há uma grande importância na micro-história, porém há o risco de ser usada como a velha desculpa do imperialismo: “se eles mesmo estão se matando, o que fazemos não é tão horrível assim”. Quando o diretor afirma que sim, no contexto do filme é o islamismo que leva a perseguição e o grande ato final, mas que poderia ser o cristianismo, assim como regimes totalitários e crenças em geral: não há como discordar.

No filme, duas comunidades – uma que vive mais acima e outra numa região baixa – têm conflitos há décadas, aparentemente essa situação se relaciona mais com a crença de que os dois lados se acham destinados àquela geografia. As rusgas vão se mostrando em pequenos embates pessoais, de situações simples de poder etc, e vão escalando até contaminarem os corpos e, em especial, os sonhos dessas pessoas. É importante dizer que em Salvação acompanhamos apenas um dos lados do conflito, portanto vemos o ódio se infiltrar de dentro e contaminar toda uma pequena comunidade. Para dar conta do clima de horror em escalada, o diretor se aproveita de vários elementos do cinema de gênero – especialmente o horror – para engajar quem está assistindo. Além de vultos, mulheres indefiníveis andando de burca pela noite, há o elemento especial do sonho. O sonho/pesadelo serve de guia que alimenta o desejo de proteção em torno da paranóia que cresce enquanto se está acordado. Porém, muitas vezes, nesse sentido, o perigo do filme nos ronda: o diretor (que é historiador) coloca a religião e seus costumes a serviço do medo e da construção do horror. Os homens se encontram para rezar e decidir como agir, é essa a sociabilidade masculina que se organiza em primeiro plano. Mas há mulheres, apesar de elas serem representadas como cruéis ou sedutoras. Há uma cena emblemática, uma das melhores, de sonho que Mesut (Caner Cindoruk), que pode ser lido como protagonista, vê as mulheres e as crianças do vilarejo colocando fogo no lugar, como se estivessem se rebelando contra esses homens (e uma mulher) protetores.

A paranóia fabula muitos inimigos e Salvação se interessa por isso. A ideia de poder, de vencer ou perder; talvez seja essa a fagulha de onde os sonhos dessa comunidade surgem, aliada à certeza de ser mais especial no seu próprio mundo do que de fato se é. E é nessa busca de retratar um caso específico de luta pelo poder – que muitas vezes é o primeiro passo para um genocídio – que está a força e o perigo de Salvação, pois o ocidente ainda não tem o olhar autocrítico de perceber uma história assim como algo que poderia acontecer (como acontece e aconteceu!) em qualquer lugar do planeta. Pois os fanáticos sempre são os outros. De qualquer maneira, um filme muito instigante e que levanta debates, pois é isso que o cinema faz, ser sempre político a quem assiste e, muitas vezes, à revelia de quem os faz.

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