Se Pombos Virassem Ouro

(2026) ‧ 1h50

“Se Pombos Virassem Ouro” flerta com o cinema junkie da década de 1990 e faz isso com a ajuda de IA e muitas contradições

Emanuela Siqueira

Filme assistido durante o 15º Olhar de Cinema.

Um dos aspectos mais interessantes sobre Se Pombos Virassem Ouro, da diretora eslovaca, que vive em Praga, Pepa Lubojacki (premiada pelo melhor documentário da 76º Festival de Berlim/2026) é justamente a complexidade de sentimentos que temos durante a projeção do longa. Antes de mais nada, apenas o fato de o filme existir – em especial, com os métodos utilizados – já levanta questões contemporâneas muito importantes: 1) a discussão que nos acompanha há uns 30 anos, desde que câmeras digitais e celulares passaram a filmar absolutamente tudo ao nosso redor e das nossas vidas. Qual é o limite do que queremos filmar e fotografar? Existe alguma ética de exposição quando filmes explicitam a vida real, autobiografias, cenas de si etc? 2) O debate em torno do uso de inteligência artificial no trabalho criativo. Quando é válido e quando não é?

Bom, mas antes de elaborar algumas dessas respostas é preciso dizer do que se trata Se Pombos Virassem Ouro. O documentário traz uma reflexão sobre o alcoolismo geracional na família de Pepa, em especial nos homens da família. O irmão da diretora, David, está há anos nas ruas – entre idas e fugas de moradias mais seguras – devido ao alcoolismo que deu às caras ainda na adolescência. Ainda, um dos primos vive em situação de rua e outro teve as pernas amputadas por conta do frio que passou também alcoolizado. O tom do filme é de autobiografia, uma espécie de ensaio sobre um eu formado diante da realidade do álcool na família de classe trabalhadora, desmantelada justamente pelo vício. Aí vem algumas elaborações sobre a primeira pergunta: ao mesmo tempo que é avassaladora a coragem de Pepa em filmar o irmão em situações realmente degradantes (e perigosas), também ficamos várias vezes desconcertadas diante da realidade brutal. Porém, esse incômodo se fortalece nas escolhas de montagem que flertam com o pop, o exagero e uma trilha sonora bem marcada que, veja bem, não são de forma alguma ruins, só nos colocam em um lugar de desconforto quando letreiros questionadores de sua realidade (escritos em primeira pessoa) surgem em fontes grandes, brilhosas e em fundo preto.

Aliás, Se Pombos Virassem Ouro é um filme que dialoga diretamente com o cinema junkie da década de 1990 – justamente quando David começa a beber –, em que os filmes de Harmony Korine e Larry Clark (para citar dois) mostravam a desolação de uma juventude viciada em drogas e álcool, uma geração que não enxergava absolutamente nada para o futuro além de sobreviver um dia por vez. Recentemente, inclusive, o documentário We were once kids (2021) investigou sobre o abuso e exploração da imagem dos jovens representados no famoso filme de 1995. Porém, Pepa Lubojacki não se regojiza diante da imagem do irmão, romantizando o vício como faziam os estadunidenses. Aqui, muitas vezes, ela tenta se agarrar ao mínimo como os curtos períodos que David consegue ficar sóbrio, o amor e carinho entre irmãos e, em especial, as memórias e histórias que carregam.

E, então, vem o segundo questionamento. A diretora usa dois elementos muito corriqueiros hoje: a inteligência artificial para fazer suas fotos “falarem” – dando um trato tragicômico para aquelas crianças das imagens que mal sabiam o que seria ser adulto no século XXI –, e, também o uso de um filtro de pombo, conhecido nas redes sociais, para camuflar a sua imagem em primeira pessoa diante da câmera. Os dois elementos dão menos rigidez para um tema tão pesado como é o vício e, portanto, acho difícil analisar isso de maneira maniqueista. É sim, bastante complexo.

Por isso que Se Pombos Virassem Ouro é um filme interessante justamente por ser feito de contradições. Não sei se uma das palavras é “corajosa” para a diretora. Porém, diria, que ela é perspicaz em conseguir montar anos de imagens tão íntimas e polêmicas de sua própria família em uma linguagem que não busca apenas explorar a imagética da degradação que o vício traz, e nem a redenção, seja a sua como irmã, seja de um irmão que se livrou da bebida. O vício existe, assim como as crianças das fotos existiram e também as possibilidades de contar essa história.

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