Seis Dias Naquela Primavera

(2025) ‧ 1h32

28.04.2026

Entre o sol da Riviera e as feridas da família

O cinema de Joachim Lafosse sempre foi um bisturi afiado voltado para as patologias da estrutura familiar. O aclamado diretor belga é conhecido por dramas familiares intensos e psicologicamente densos (como Propriedade Privada e Os Cavaleiros Brancos). Em Seis Dias Naquela Primavera, o diretor não foge à regra. O filme é estrelado pela atriz Eye Haïdara no papel de Sana, acompanhada pelos jovens atores Jules Waringo, Léonard Pinero Müller e Théodore Pinero Müller.

A trama acompanha uma mãe solteira que decide levar seus filhos gêmeos para a praia nas férias de primavera. Os primeiros planos acabam não saindo como o planejado, mas, apesar dos imprevistos, Sana tem uma ideia: ela decide se hospedar na luxuosa casa de veraneio de seus antigos sogros na Riviera Francesa. Escondidos e sem contar a ninguém, o trio vive seis dias de um sol escaldante que começa como uma inocente decisão em busca de descanso, mas logo marca o fim da inocência dos meninos.

O longa é fascinante e carrega aquele tom agridoce de “coming-of-age” misturado com um suspense psicológico contido. A ideia de usar um espaço que não lhe pertence mais (a casa dos antigos sogros) cria uma tensão imediata. Não é apenas uma invasão física, é uma invasão de memórias e de um status social que Sana, como mãe solteira, talvez tenha perdido ou do qual deseje se reapropriar.

A Riviera Francesa é o símbolo máximo de luxo e beleza estática. Colocar uma família “clandestina” nesse cenário cria um contraste entre a perfeição externa e a precariedade da situação deles.

O que levou Sana a escolher especificamente a casa dos ex-sogros? Há um desejo silencioso de vingança ou apenas saudade de uma vida mais fácil? Até onde uma mãe vai para dar aos filhos uma “experiência perfeita”, mesmo que baseada em uma mentira? Como o olhar dos gêmeos sobre a mãe muda quando eles percebem que ela é falível e capaz de quebrar as regras?

Seis Dias Naquela Primavera é um daqueles filmes que aposta mais na atmosfera e na sensibilidade do que em grandes reviravoltas. A história acompanha um recorte curto de tempo para explorar mudanças internas profundas nos personagens, geralmente ligadas a amor, perda ou recomeço. O filme adota um ritmo contemplativo, com cenas longas e silenciosas. Para alguns, isso é justamente o charme, pois cria uma imersão emocional delicada. Para outros, pode soar lento demais, especialmente para quem espera uma narrativa mais dinâmica.

As performances são boas pela naturalidade. O elenco consegue transmitir muito com pouco diálogo, o que combina com a proposta intimista do filme. A ambientação primaveril não é só cenário, mas funciona como metáfora de transformação. A fotografia é um dos pontos altos, com uso de luz natural e cores suaves que reforçam o tom melancólico e esperançoso ao mesmo tempo. É um filme mais sentido do que assistido.

O filme entrega uma abordagem sensível e realista da saúde mental, além das atuações fortes. Se você já viu outros trabalhos do Lafosse (como Depois do Amor), vai reconhecer o tom contido e emocionalmente denso. O roteiro é fortemente inspirado em memórias da infância do próprio diretor, trazendo um tom de intimidade e catarse.

Ao longo de seis dias, alegria e ansiedade convivem num ambiente marcado pela ternura, pela clandestinidade (os visitantes não podem usar a água, a luz, usar a praia habitual) e pelo desconforto social , um exercício de memória com tanto de nostalgia como de terapia, num olhar para o passado como uma marca indelével de amadurecimento.

Isso mesmo se sente-se quando ouvimos “Here Comes the River”, do músico Patrick Watson, quando a família, acompanhada por um novo interesse amoroso de Sana, Jules (Jules Waringo), viaja de carro para o Sul de França. O tema serve de metáfora a partir da água (“o rio”) – como algo que cresce e surge subitamente, como somos muitas vezes arrastados pelas águas turbulentas da vida.

A produção entrega extrema beleza estética, pelas atuações naturalistas e evita resoluções fáceis ou moralistas, características marcantes da filmografia de Lafosse. A sensibilidade e a condução da história renderam a Joachim Lafosse os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Roteiro no prestigiado Festival de San Sebastián.

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Ricardo Feldmann Dotto

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