Sobrenatural: Agora Entre Nós

(2026) ‧ 1h46

Uma porta aberta para os mesmos sustos

Rapha Ritchie

Depois de cinco filmes, a família Lambert finalmente saiu de cena, o que é ótimo para eles e um pequeno problema para a franquia, porque alguém ainda precisava continuar entrando no Além. Sobrenatural: Agora Entre Nós resolve isso apresentando Gemma, uma mãe que vive com a filha na casa onde cresceu e descobre uma ligação bastante inconveniente com aquele plano astral que acompanha a série desde o começo. A diferença agora é importante: Gemma não apenas consegue chegar até lá. Ela pode trazer alguma coisa de volta.

Essa mudança altera uma dinâmica que já parecia bastante estabelecida. Antes, o medo estava em atravessar para o Além e encontrar alguma coisa esperando por você. Agora existe a possibilidade muito menos confortável de ficar em casa e, ainda assim, receber visita. O perigo deixa de depender apenas de alguém cruzar aquela fronteira e passa a incluir a chance de aquilo que vive do outro lado atravessar também.

Só que renovar uma franquia dessas é uma tarefa meio ingrata. Se muda demais, perde parte da identidade. Se muda pouco, parece que alguém só trocou os móveis de lugar e chamou de casa nova. Aqui, Gemma e a filha substituem os Lambert, mas Elise continua por perto, o Além permanece visualmente familiar e boa parte dos sustos ainda segue movimentos que a série já repetiu o suficiente para ensinar o espectador a desconfiar até de um canto vazio da sala.

Curiosamente, é quando o longa faz menos que ele assusta mais. Uma figura parada onde não deveria estar, alguma presença descoberta alguns segundos antes da personagem, um enquadramento que deixa espaço demais atrás de alguém. Esse tipo de cena cria uma tensão muito mais incômoda do que o susto anunciado por um estrondo na trilha, porque existe um intervalo cruel entre perceber a ameaça e esperar que alguma coisa aconteça.

O problema maior está justamente no Além. Depois de tantas visitas, ele já não parece tão proibido. Conhecemos sua aparência, seus caminhos e boa parte das criaturas que podem surgir dali. A habilidade de Gemma poderia bagunçar essa familiaridade ao trazer o perigo para fora daquele espaço, mas o longa demora a explorar essa possibilidade e deixa parte das variações mais inventivas para quando já estamos perto do terceiro ato.

A relação entre mãe e filha ajuda a dar alguma personalidade à troca de protagonistas, mas ainda existe a impressão de que uma família nova foi colocada dentro de uma estrutura antiga. E Elise, ao mesmo tempo em que oferece continuidade, acaba lembrando o quanto essa nova fase ainda precisa segurar na mão da anterior.

Não falta disposição para mexer em algumas regras, mas falta coragem para permanecer tempo suficiente longe daquilo que a série já conhece. A porta para o Além agora abre para os dois lados; quem continua escolhendo quase sempre os mesmos caminhos é a franquia.

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