Suspeita

(1941) ‧ 1h39

Quando o casamento se transforma em ameaça

Felipe Fornari

Suspeita constrói o suspense a partir de uma pergunta que talvez nunca possa ser respondida com segurança: Lina McLaidlaw está realmente vivendo ao lado de um assassino ou transformando as falhas do marido em evidências de um crime que ainda não aconteceu? Tímida, protegida pelos pais e acostumada a uma existência sem grandes emoções, ela conhece o sedutor Johnnie Aysgarth e encontra nele tudo aquilo que sua vida não possui. O casamento acontece rapidamente, mas a aventura romântica começa a adquirir contornos ameaçadores quando Lina descobre que o homem encantador por quem se apaixonou é também um mentiroso irresponsável, endividado e capaz de esconder dela praticamente qualquer coisa.

Joan Fontaine, novamente trabalhando com Hitchcock depois de Rebecca, a Mulher Inesquecível, oferece uma interpretação extraordinariamente vulnerável e conquistaria aqui o Oscar de Melhor Atriz. Lina começa como uma mulher reprimida pelo ambiente familiar e seduzida pela possibilidade de escapar daquela existência, apenas para descobrir que sua nova liberdade trouxe outra forma de aprisionamento. Hitchcock mantém a narrativa próxima de seu ponto de vista, fazendo com que cada descoberta sobre Johnnie adquira proporções cada vez mais sinistras. O espectador não possui uma realidade objetiva à qual possa recorrer: vê aquele casamento essencialmente através dos olhos de alguém que deixou de confiar no próprio marido.

Cary Grant é fundamental para sustentar essa ambiguidade. Seu carisma torna perfeitamente compreensível a atração de Lina, mas Hitchcock encontra pequenas rachaduras naquela imagem de homem irresistível. Johnnie mente com enorme facilidade, gasta dinheiro que não possui, aposta, manipula pessoas e frequentemente reage às preocupações da esposa como uma criança que espera ser perdoada depois de mais uma travessura. Nada disso prova que seja um assassino, mas cada comportamento fornece a Lina material suficiente para imaginar algo pior. Grant consegue permanecer encantador enquanto deixa surgir, por instantes, uma agressividade que modifica completamente nossa percepção do personagem.

É justamente dessa distância entre fatos e interpretações que nasce o melhor da produção. Uma conversa sobre métodos de assassinato pode parecer uma confissão indireta; determinadas palavras formadas durante um jogo passam a alimentar associações com morte; uma viagem envolvendo o amigo Beaky ganha significado aterrorizante depois que Lina começa a acreditar que Johnnie possui motivos para eliminá-lo. Hitchcock demonstra que o suspense não exige necessariamente uma ameaça concreta. Basta estabelecer uma possibilidade e permitir que a imaginação complete aquilo que não pode ser comprovado.

Nenhuma imagem sintetiza melhor essa estratégia do que o célebre copo de leite. Johnnie sobe lentamente a escadaria carregando a bebida para a esposa, enquanto Hitchcock faz o líquido praticamente brilhar no meio da composição. O objeto mais banal possível torna-se aterrorizante porque Lina acredita que ele pode conter veneno, e o espectador já foi condicionado a compartilhar sua desconfiança. A força da sequência está precisamente no fato de não sabermos mais do que ela. O perigo pode estar dentro daquele copo ou existir apenas na mente da personagem, mas, naquele momento, ambas as possibilidades parecem igualmente convincentes.

O filme também funciona como um olhar desconfortável sobre o casamento. Lina foge do modelo previsível representado pelos pais e acaba unida a um homem cuja imprevisibilidade passa a aterrorizá-la. Sua atração inicial pela liberdade de Johnnie gradualmente se transforma na necessidade de controlá-lo e compreendê-lo, enquanto ele continua incapaz de assumir responsabilidades. O problema é que o desfecho procura resolver de maneira excessivamente simples uma ambiguidade construída com enorme precisão. A tentativa de reorganizar todas as suspeitas e preservar determinada imagem de Johnnie enfraquece parte daquilo que o filme havia sugerido, deixando uma sensação de conciliação pouco compatível com a inquietação anterior.

Ainda que seu encerramento impeça Suspeita de alcançar plenamente as possibilidades mais sombrias de sua premissa, tudo que o antecede demonstra Hitchcock em extraordinário domínio da subjetividade. O diretor transforma gestos, objetos e silêncios em ameaças porque compreende que o medo mais eficiente é aquele que talvez não tenha fundamento algum. Fontaine e Grant sustentam perfeitamente esse jogo entre atração e desconfiança, fazendo de um casamento aparentemente privilegiado um espaço de paranoia crescente. No fim, a maior ameaça não é descobrir se Johnnie seria capaz de matar Lina, mas perceber que ela chegou ao ponto de acreditar que o homem com quem divide a vida pode estar esperando a oportunidade perfeita para fazê-lo.

ONDE ASSISTIR

OUTROS INDICADOS