Terremoto em Lisboa

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"Terremoto em Lisboa": Entre o som, a fúria e o silêncio

Terremoto em Lisboa, da diretora Rita Nunes, se passa no ano de 2027, quando um grupo de cientistas do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, dentre dos quais se destaca, o trabalho da determinada sismóloga e professora Marta (Sara Barros Leitão), estão sob uma condição extremamente tensa e complexa: a proximidade de um desastre, a previsão de um terremoto com magnitudes tão elevadas, com potencial de destruição da cidade de Lisboa. O filme acaba relacionando esse evento com o passado, que nunca deixou de assombrar a sociedade portuguesa, o terremoto que devastou a cidade em 1755.

Os cientistas sempre alertaram para a possibilidade do episódio trágico se repetir em algum momento da história. O que a equipe de cientistas não conseguiu prever, é que seriam eles os responsáveis por alertar a população sobre tal tragédia. É interessante observar que o roteiro vai se desenvolvendo através das disputas e correlações de forças, entre os posicionamentos dos pesquisadores, com destaque para os conflitos entre Marta e seu namorado Miguel (Miguel Nunes), oceanógrafo. No entanto, em nenhum momento, o papel da ciência é questionado, ela é soberana, pois passa a guiar e orientar as atitudes e decisões da esfera política.

Temos aqui um ponto de inflexão interessante, o casal, Marta e Miguel, na medida em que, passam a divergir sobre as questões científicas, também problematizam, os limites e possibilidades da sua relação amorosa. São personagens divergentes e complementares. A indecisão passa a ser a tônica da segunda metade do filme, pois o grupo de estudiosos passa a conviver com um impasse, avisar ou não a população sobre a tragédia que se anuncia e aqui reside o dilema central: alertar a população e provocar um caos social ou silenciar e tornar-se cúmplices da destruição de Lisboa e da região de Algarve. No plano afetivo, Marta possui conflitos internos não esclarecidos, que a impedem de assumir o seu amor por Miguel. O oceanógrafo decide confrontá-la a respeito do futuro da relação, no exato instante que precede a tragédia. A vida pessoal e profissional na encruzilhada de um abalo sísmico.

A frase que abre o filme “O mundo real é o melhor que todos os mundos possíveis”, de Gottfried Leibniz, Teodiceia, na sequência afirmam que diferente das crises políticas, os terremotos não seriam obra da ação humana. Ao passo que Marta, afirma para os representantes do governo português, que o fundo do oceano é onde a nossa informação acontece. A natureza não julga, além do bem e do mal, nós, seres humanos, racionalizamos os fenômenos. Devemos olhar para o mar, para compreender as suas mudanças e transformações, a força do som e da fúria.

O roteiro é encadeado e nos conduz pelos dilemas e conflitos profissionais e pessoais da protagonista, mas não avança na sua construção subjetiva, nem tão pouco do restante do elenco. Os coadjuvantes são quase imperceptíveis, contribuem muito pouco na construção do enredo, conhecemos muito pouco de cada um, passando ao largo do script. A cachorrinha de Marta, acaba roubando a cena em alguns momentos, com seu olhar afetuoso e compreensível para a sua dona.

Ao final, a sensação é que faltou alguma coisa, um algo mais, um fechamento que pudesse relacionar o caos sísmico com o caos subjetivo e social das vidas envolvidas na história. Uma das frases dita por um dos cientistas é a seguinte: A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, sem sentido algum, William Shakespeare, resta-nos compreender que não somos nada, somos poeiras do universo, pequenas partículas diante da magnitude e do poder da natureza.

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