Tetra: Acreditar de Novo

(2026) ‧ 1h26

O peso de voltar a acreditar

Felipe Fornari

Tetra: Acreditar de Novo parte de um dos capítulos mais conhecidos da história do esporte brasileiro, mas encontra sua força ao revisitar não apenas a conquista da Copa do Mundo de 1994, e sim o caminho turbulento que levou até ela. Antes da consagração nos Estados Unidos, existia uma seleção cercada por desconfiança, pressionada por um jejum de 24 anos sem títulos mundiais e obrigada a conviver diariamente com a cobrança de um país acostumado a vencer.

O documentário entende que o tetracampeonato não nasceu na final contra a Itália. Sua narrativa volta alguns anos no tempo para mostrar as cicatrizes deixadas pela eliminação em 1990 e a dificuldade enfrentada durante as Eliminatórias. Ao recuperar esse contexto, o filme ajuda a lembrar que aquela equipe, hoje celebrada como histórica, esteve longe de ser unanimidade. A reconstrução dessa trajetória torna a conquista ainda mais significativa.

O grande diferencial de Tetra: Acreditar de Novo está na proximidade que estabelece com seus personagens. Os depoimentos de nomes como Romário, Bebeto, Dunga, Raí, Ricardo Rocha e outros integrantes do elenco funcionam não apenas como reconstituição dos fatos, mas como relatos emocionais de quem viveu a pressão por dentro. Há uma sinceridade nos testemunhos que aproxima o espectador daqueles momentos, especialmente quando os jogadores recordam as dúvidas, os conflitos e a responsabilidade que carregavam.

Outro acerto importante está no uso das imagens registradas pelos próprios atletas. Os bastidores revelam uma seleção muito diferente daquela vista nas transmissões televisivas da época. Entre treinamentos, viagens e momentos de descontração, o documentário humaniza figuras que muitas vezes ficaram reduzidas ao status de ídolos. São pequenos registros que ajudam a construir uma dimensão mais íntima daquela campanha.

A produção também ganha pontos ao incluir a visão dos adversários italianos. Ouvir quem esteve do outro lado do campo na decisão amplia a perspectiva do relato e reforça o tamanho do feito brasileiro. Ainda assim, fica a sensação de que algumas ausências impedem um panorama ainda mais completo. Certos personagens importantes aparecem apenas em imagens de arquivo, quando poderiam ter contribuído com reflexões valiosas sobre aquele período.

Essa limitação também se reflete na abordagem adotada pelo filme. O foco está claramente na emoção e na celebração da conquista, deixando em segundo plano discussões mais aprofundadas sobre aspectos táticos, políticos ou estruturais do futebol brasileiro dos anos 1990. Não chega a comprometer a experiência, mas reduz um pouco o potencial analítico que o tema poderia oferecer.

Mesmo sem se aprofundar tanto quanto poderia, Tetra: Acreditar de Novo cumpre seu objetivo principal com competência. É um documentário que resgata a memória de uma geração marcada pela resiliência e pela capacidade de transformar desconfiança em glória. Para quem viveu aquele período, funciona como uma viagem nostálgica; para os mais jovens, como um retrato acessível de um dos momentos mais importantes da história do futebol brasileiro. Afinal, antes de levantar a taça, aquela seleção precisou reaprender a acreditar.

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