The Mortuary Assistant

(2026) ‧ 1h31

30.03.2026

Entre o bisturi e o sobrenatural: um terror que disseca o medo, mas perde o controle

“A recém formada Rebecca Owens assume o turno da noite na River Fields, uma funerária que parecia comum, mas que transforma em pesadelo a rotina da Assistente Mortuária.”

Escrito por Tracee Beebe e Brian Clarke, adaptado do videogame de mesmo nome, lançado em 2022 pela DreadXP, dirigido por Jeremiah Kipp, e estrelado por Willa Holland, Paul Sparks, Mark Steger, Emily Bennett, Keena Ferguson Frasier, John Adams, e Shelly Gibson. The Mortuary Assistant é um terror sobrenatural e suspense psicológico que surpreende ao trazer a temática da possessão de maneira revigorada para as telonas.

Habitantes dos cantos escuros do IML, sejam todos bem-vindos a mais uma crítica cinematográfica.

A obra inicia com dedicação aos detalhes, mostrando close ups elegantes da última autópsia assistida que Rebecca Owens está performando, seu derradeiro teste para formalmente ser considerada uma funcionária da funerária no período diurno.

Logo descobrimos que Rebecca é na verdade uma personagem complexa, que carrega consigo ainda hoje, as cicatrizes de um passado repleto de dificuldades e tragédias.

Ao receber uma ligação inesperada de seu chefe, para que trabalhe no turno da noite, ela retorna para a funerária, no entanto, o que deveria ser rotina, se torna uma sinistra luta por sobrevivência, e além de enfrentar os horrores que a noite carrega, também reviverá seus mais profundos traumas.

Logo de início coisas estranhas começam sutilmente a acontecer, o filme não segura suas esquisitices ou mistérios, entregando, junto com uma iluminação pálida e ambiente claustrofóbico, uma atmosfera sempre tensa e inquietante.

Confesso a vocês que ao mesmo tempo que eu fico em cima do muro com a obra, vez e outra eu caio para ambos os lados. É um filme mediano, que é interessante, visualmente bonito, tem apelo, no entanto, ao mesmo tempo que faz pensar “é um bom filme”, também possui alguns detalhes que deixam qualquer um confuso na avaliação.

The Mortuary Assistant possui direção tenaz, mas, ao mesmo tempo, são tantos elementos visuais correlatos, que às vezes dá a impressão de experimentalismo. É pé no chão, mas, em alguns momentos dá uma flutuada no tom antes de retornar. Tudo parece ser bem executado, no entanto em alguns momentos existem cortes bruscos que parecem adiantar a história, dando uma sensação de que algo está desconexo.

O ponto alto fica por conta do visual, que deixa o espectador imerso em tensão constante. As cores frias e a iluminação pálida proporcionam uma estética de insegurança e desgraça iminente, contrastando com as cores quentes de ambientes em que os protagonistas geralmente se encontram em paz. A cinematografia e fotografia são as responsáveis pelo filme ser tão visualmente interessante, em certos momentos possuindo o que parecem ser “Cutscenes” de vídeo game, noutros lembrando vídeo clipes musicais, até cenas, que ironicamente chamo de “Cinematográficas”. Uma cena exterior me chamou atenção por possuir “uma vibe” semelhante às de produções de Suspense que giram ao redor dos anos de 1999 e 2004, certamente é um filme repleto de referências.

A direção conduz de forma paciente e firme, como um legista que manipula um bisturi em uma autópsia. E além disso, a utilização dos ambientes reforça um dos conceitos propostos pelo filme, a prisão mental.

Movimentando-se entre os cômodos, subindo e descendo escadas, em meio a uma espécie de labirinto, sem distinção entre ponto de partida ou chegada, o mundo físico espelha o estado psicológico da personagem, que trava uma luta não apenas no presente, mas, degladiando-se em meio a acontecimentos do passado.

Além dos temas de sobrevivência e possessão demoníaca, em uma outra camada fica a mensagem de que existe uma luta pessoal, em que devemos fazer o que for possível para chegarmos ao final do dia, e que, precisamos decidir se nos entregaremos ao medo, ou viveremos apesar dele. A reflexão final é de que os nossos demônios, – ou as consequências das nossas ações – sempre caminharão conosco, mas, que mesmo assim, é preciso lutar.

A construção dos personagens e a atuação proporcionada pelos atores é interessante, proporcionando momentos desconcertantes, esquisitos, que ajudam a construir a atmosfera de estranheza e incerteza.

Pontos Negativos:

Já os pontos negativos se dão principalmente na parte narrativa. Na teoria os temas, conceitos e construção de mundo são muito bons, mas nem sempre bem executados.

A “lore” e mitologia são explicadas ao longo da película, no entanto, não bem dosadas, precisando ser adiantada em determinado momento, e a solução parecendo um tanto quanto acelerada, sendo entregue de maneira simples e quase pueril, o que dá tira um pouco da imersão. Além disso, misturado a um elemento visual, existe um excesso de “Flashbacks” para contar a história de uma das personagens, assim como alimentar conceitos presentes em outras camadas, o que causa mais uma vez a quebra na imersão, mas, sobretudo uma sobrecarga visual, deixando a experiência um pouco irritante e cansativo em breves momentos. E assim, os temas e conceitos que em teoria são interessantes, acabam se tornando superficiais, não proporcionando o efeito que se espera.

Por fim, existe uma aparição no primeiro terço do filme, que simplesmente não aparece em nenhum outro momento, de um personagem sem qualquer ligação ou explicação, demonstrando tanto falta de coerência, quanto de coragem de colocar algo melhor e fiel no lugar. Além disso, a entidade demoníaca tem, aparemente, duas formas, mas que não possuem explicação, e simplesmente só estão lá e são daquele jeito mesmo.

Em conclusão, The Mortuary Assistant é um filme mediano, que sofre um pouco com o baixo orçamento, mas, que é interessante, tem bastante qualidade intrínseca, e que principalmente, trabalha a possessão demoníaca de maneira diferente e criativa, ficando com uma nota 3,5 de 5.

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AUTOR

Pedro Fonseca

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