Três Lembranças da Minha Juventude

26.11.2015 │ 09:00

26.11.2015 │ 09:00

A memória pode ser formada pela lembrança exata dos fatos do passado mas também pode conter elementos de ficção, criados entre o que gostaríamos que tivesse sido e o que aconteceu de fato. No francês Três Lembranças da Minha Juventude (2015), de Arnaud Desplechin, Paul Dédalus narra ao espectador três momentos cruciais de sua juventude, tentando justificar sua trajetória e o homem que acabou se tornando.

Paul Dédalus é um personagem antigo do diretor Arnaud Desplechin. Apresentado há quase 20 anos em Como eu Briguei (Por Minha Vida Sexual), o ator Mathieu Amalric volta a incorporar Dédalus que retorna à França após um longo período no Tajiquistão. Se preparando para voltar à França, Paul retorna à lembranças da infância: a dura relação com os pais e o companheirismo com os irmãos. São cenas melancólicas e um pouco traumáticas, mas fundamentais para o amadurecimento do pequeno Dédalus. Preso no aeroporto de Paris por problemas no passaporte, Paul recorre mais uma vez à memória e retorna para uma viagem à Rússia aos 16 anos, repleta de aventuras e uma embrionária formação política. Mas são as memórias relacionadas à Esther – a sua relação mais longa desde os 19 anos – que ocupam boa parte de Três Lembranças da Minha Juventude e justificam o Paul Dédalus de hoje, que parece estar eternamente em busca de algo que não sabe bem o que seria.


O filme começa muito bem, mesclando as divertidas – e outras traumáticas – memórias de Paul. Há um tom de ternura e sagacidade no protagonista que agrada e causa empatia, mas a extensa memória do relacionamento dele com Esther ultrapassa vários pontos narrativos. A terceira lembrança que envolve basicamente a saída da adolescência, a descoberta do amor e sexo, é fadada ao fracasso pelo exagero do enredo em ir desconstruindo a jovem amante e empoderando apenas o protagonista.

Paul estuda antropologia em Paris, é um garoto desde pequeno independente e uma espécie de cidadão do mundo, nunca se sentindo bem em um lugar fixo. O modo de vida libertário o representa bem mas também deixa claro que a intelectualidade e liberdade está sempre a favor dos homens. Ao passo que Dédalus experimenta a sua vida sexual e intelectualidade sempre se movendo, Esther não consegue sair da cidade de Lille e como se fosse uma flor, vai murchando e perdendo a cor conforme vai se tornando dependente de Dédalus. Apesar de toda a sua liberdade, Paul é assombrado pela figura de Esther, aparentemente frágil mas extremamente marcante.


Mathieu Amalric, o Paul adulto, contrasta incrivelmente bem com o jovem Quentin Dolmaire. Amalric tem um extenso currículo interpretando anti-heroís e personagens confusos com sua vida, vale lembrar do belo O Escafandro e a Borboleta. Já Dolmaire, mesmo tão jovem, dá vida a um Dédalus aventureiro e cheio de certezas para a sua vida. Destaque também para Lou Roy-Lecollinet que mesmo sendo apagada com o passar da narrativa, garante sua presença constante como lembrança e figura de repetição nunca resolvida na vida do protagonista.

Algo que agrada bastante em Três Lembranças da Minha Juventude é assistir os cenários e as trajetórias dos coadjuvantes do filme. Os jovens atravessam os anos 80 e o começo dos anos 90 acompanhando o mundo, porém eles parecem também estar fora de seu tempo, vivendo intensamente suas próprias trajetórias e peculiaridades. A trilha sonora que mescla música francesa e americana completa o ar de saudosismo de época, fundamental para um trabalho de memória.


Não é necessário ter um conhecimento prévio de Paul Dédalus para se divertir assistindo Três Lembranças da Minha Juventude. Basta sentar e acompanhar a sua forma de contar como chegou até nós, mesmo que às vezes tudo pareça um pouco exagerado, romantizado e idealizado. Afinal, como contaríamos nossas próprias memórias sem prevalecer nosso ponto de vista? O filme de Desplechin é um ótimo exercício para isso.

Nota:

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