Uma Nova Amiga

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16.07.2015

Uma das belezas nos filmes de François Ozon é que eles costumam manter um pé no factual e assim conseguir construir narrativas com elementos surreais e tons fantásticos ou exagerados, dando um clima até mesmo de caricatura. Em “Uma Nova Amiga” (Une Nouvelle Amie, 2014), baseado em conto homônimo da escritora de suspense Ruth Rendell, Ozon mais uma vez trabalha com o exagero fantástico para trazer questionamentos pertinentes e atuais em um filme que oscila entre drama e até mesmo comédia.

Claire e Laura são amigas desde crianças, as melhores amigas diga-se de passagem. O espectador é apresentado à elas em uma sequência de cenas que acompanha a amizade intrincada com o crescimento das duas. Laura aparenta sempre ser mais feminina, mais ousada e parece que os homens a adoram por isso. Já Claire sempre está à espreita, como coadjuvante. Laura conhece David e casam-se, um casamento pomposo como de histórias românticas. Claire conhece Gilles e se casa também. Laura fica doente logo que engravida e sua filha nasce, morrendo em seguida. Não sabendo lidar com a perda da amiga, Claire tenta manter laços com o víuvo e o bebê de sua grande amiga, e entrando na intimidade dessa nova família ela descobre que David é uma crossdresser e isso acaba abalando várias estruturas e certezas de Claire.

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“Uma Nova Amiga” poderia ter ambicionado ser um filme engajado nas atuais discussões de binarismos de gênero – o que é ser homem, o que é ser mulher – mas opta por deixar isso implícito no roteiro. O longa desnuda de forma muito natural a forma em que David se apresenta – e vai construindo ao longo do filme – a sua identidade como mulher. A forma em que ele se enxerga quando está usando um vestido ousado, uma maquiagem que realça seu rosto ou mesmo um penteado. David e Claire vão descobrindo faces diferentes de ser uma mulher, e mesmo que se coloque a sexualidade em discussão em vários momentos do filme, ela é apenas uma trama que pode ou não se desenvolver, deixando que questões de identidade e relacionamento sejam o foco do filme.

Destaque para Romain Duris que parece se sair muito bem em personagens dirigidos por diretores com uma queda ao surreal e fantástico, o personagem dele em “A Espuma dos Dias”, do ótimo Michel Gondry, é apenas um dos destaques de sua carreira. Duris demonstra versatilidade e se mostra confortável na situação da crossdresser carinhosamente identificada como Verônica. Já Anaïs Demoustier é um contraponto excelente como Claire, levemente masculinizada – nem de longe caricata – ela traz uma suavidade e olhares de descoberta para o casal de protagonistas que se forma durante o longa.

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O que faz de “Uma nova Amiga” ser um ótimo longa é que, primeiramente ele é um filme que não impõe questionamentos profundos mas ao mesmo tempo consegue deslocar um espectador que chega mais despreocupado. E em segundo, as relações e as performances de gêneros são tratadas de formas bastante naturais e em constante construção, sem muitos didatismos mas com afeto e sentimentos, mostrando que questões de grandes polêmicas podem ser facilmente resolvidas com o uso da compreensão.

Nota:

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AUTOR

Emanuela Siqueira

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