Uma Viagem Extraordinária

06.11.2014 │ 08:44

06.11.2014 │ 08:44

Um filme dirigido por um cineasta estrangeiro, que investiga os pormenores de um determinado modo de vida (que não o do seu país) pode sofrer com as diferenças de idioma e realidade que o mesmo confronta entre seu país e o país retratado. Mas por outro lado, dependendo do caso, o diretor pode retratar a cultura do outro país melhor do que os cineastas nativos. Uma Viagem Extraordinária faz parte do segundo caso.
O francês Jean-Pierre Jeunet, de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, retrata os EUA de maneira satírica e sensível, como nenhum outro diretor americano conseguiria. O diretor nos apresenta, nesse filme, uma família pacata americana do interior, seus costumes e maus comportamentos. E as estranhezas do diretor, que vêm desde Delicatessen colaboram nesses retratos.
Baseado no romance ilustrado de Reif Larsen, a adaptação de Jeunet é enganosamente vendida como uma aventura infantil. Mas dentro desse visualmente deslumbrante conto, a imaginação de Jeunet te leva por uma excursão através do coração e alma obscura da América. Faltaria coragem para um diretor americano realizar tal estudo.
Kyle Catlett interpreta T.S. Spivet, um garoto gênio de 10 anos de idade que vive numa pacata cidadezinha rural em Montana e cujo conhecimento científico e poderes analíticos lhe tornam um pária dentro da sociedade rigidamente conformista que o filme retrata. As reações ao menino, vindas a partir dos adultos que o cercam fora da família, variam, mas em sua maioria o personagem gera grande perplexidade aos mesmos.
E em casa, nada melhora para o menino. Lá, ele é emocionalmente rejeitado por um pai cowboy obcecado por sua fazenda, que gostaria que o menino fosse mais parecido com seu irmão (um tanto quanto mais bronco). E embora o menino compartilhe um vínculo intelectual e afetivo com a mãe, interpretada por Helena Bonham Carter – uma mulher que precisa limitar sua paixão científica em prol de suas tarefas domésticas – ela acaba por não enxergar, a principio toda a genialidade do garoto.
E é após uma invenção revolucionária de Spivet, que ele sai em uma viagem através do país para chegar ao Instituto Smithsonian e receber um prêmio por sua invenção, sem que as pessoas do instituto saibam que ele é apenas uma criança. E é nessa viagem que ele entenderá seus pais, irmã e o mundo retrógrado que o cerca.
Dentro das camadas coloridas de humor e drama que são misturadas com maestria pelos poderes mágicos cinematográficos de Jeunet, há percepções pungentes acerca de tendências culturais opressivas recorrentes nos EUA. Há a intolerância ao diferente, o ostracismo das mentes experientes e uma luta contra o conformismo. Nesse aspecto, o diretor nos faz acreditar na possibilidade de um mundo melhor, onde devemos fazer de nossa vida, Uma Viagem Extraordinária e cheia de mudanças.

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