Zico, o Samurai de Quintino é um documentário que presta uma justa e necessária homenagem a um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos, o camisa 10 da Gávea. A produção mescla aspectos da vida pessoal com a conjuntura política do país, evidenciando seu legado para as gerações futuras, sejam elas brasileiras ou japonesas. Com direção de João Wainer e uma trilha sonora primorosa, que se torna mais um personagem da narrativa, a produção traz imagens de arquivos, depoimentos emocionantes e locações que vão desde o subúrbio carioca até o cruzamento de Shibuya, um dos mais movimentados do mundo, em Tóquio, Japão.
Se você gosta ou não de futebol, o fato é que já deve ter ouvido falar em Zico. Atual Embaixador do Flamengo e Conselheiro do Kashima Antlers, ganhou esse apelido de uma prima ainda na infância. Batizado Arthur Antunes Coimbra, é filho de José Antunes Coimbra, imigrante português da região de Tondela, na província de Beira Alta, casado com a brasileira Matilde da Silva Coimbra.
Dessa união nasceram seis filhos. Zico é o caçula dessa família, que passou a viver em Quintino, bairro da zona norte da cidade do Rio de Janeiro. Um lugar feito de memórias e paixões, que representa, em última instância, a passagem da infância, da adolescência e a construção pessoal e profissional do craque.

Os irmãos sempre foram seus principais apoiadores e, de certa forma, treinadores em potencial. Prova disso é que o craque afirma que Zeca, seu irmão mais velho, foi o responsável por ensiná-lo a fazer gols e a fazer a bola andar durante as partidas. Já a forma de comemorar, com os braços estendidos, ele atribui a Dida, um dos maiores ídolos do Flamengo, superado em número de gols justamente por seu maior fã, Zico. Como um bom aprendiz, dormia todas as noites com a bola embaixo da cama, revelando a simbiose entre o menino e o futebol.
Zico herdou do pai, goleiro amador na juventude, a paixão pelo Clube de Regatas do Flamengo, onde iniciou sua trajetória como jogador de futebol. Trata-se do seu time de chegadas e partidas, que se confunde com sua própria história, marcada por lutas, conquistas, frustrações, superações, dores e alegrias.
Se hoje o Flamengo é um clube reconhecido internacionalmente, com uma das maiores torcidas do mundo, isso se deve, em grande parte, ao talento e à lealdade do “Galinho de Quintino”. O apelido revela o grau de pertencimento e longevidade do jogador no time da Gávea, sendo atribuído em razão de sua estatura franzina e do cabelo loiro na juventude.
Uma das virtudes da produção é a retomada do futebol brasileiro das décadas de 1970, 1980 e 1990, com jogadas e gols de tirar o fôlego. Nesse contexto, Zico, ao lado de companheiros como Júnior “Maestro” e Paulo César Carpegiani e de rivais, mas na essência amigos, como Roberto Dinamite, Falcão, Batista e Toninho Cerezo, transformou o futebol em arte. O documentário também aborda as implicações do contexto político da época, incluindo as perseguições do Estado ditatorial civil militar no Brasil e na América Latina, com destaque para o governo de Augusto Pinochet, no Chile. Futebol e política são retratados, assim, como dois lados de uma mesma moeda.

Todos nós somos fruto de nossas vivências, escolhas e experiências, e, no caso do Galinho, não foi diferente. O documentário consegue articular a construção da identidade do atleta em consonância com seus papéis de filho, esposo e pai de três meninos. Sandra Coimbra é destacada como sua companheira de 50 anos, seu porto seguro, uma mulher que não foi coadjuvante, pois sempre lutou com personalidade pela família e acreditou na capacidade do marido, mesmo quando seu talento chegou a ser questionado.
Um ídolo se constrói pela capacidade de aproximar culturas, reafirmando o esporte como um mecanismo de combate aos preconceitos e às diferenças. Zico conseguiu essa proeza ao unir, por meio de sua personalidade, comprometimento, resiliência e obstinação, as culturas ocidental e oriental.
A obra também aborda uma decisão que surpreendeu a todos sob a lógica do empresariamento do futebol, quase paradigmática, mas que, ao final do documentário, revela suas motivações, deixar o Brasil nos anos 1990 para jogar no Japão, no Kashima, então um time praticamente sem expressão, em um contexto próximo ao futebol de várzea. Precisava fugir das pressões e reencontrar a alegria e a leveza de jogar futebol. Conseguiu. Hoje, é um autêntico cidadão do mundo, que nunca perdeu um voo, nem tampouco sua essência suburbana, generosa e solidária.






