Criaturas Extraordinariamente Brilhantes

(2026) ‧ 1h51

06.05.2026

Quando até um polvo entende melhor a solidão humana

Existe algo imediatamente encantador em Criaturas Extraordinariamente Brilhantes, mesmo antes de sua trama realmente engrenar. Talvez seja a proposta curiosa de colocar um polvo como uma das peças centrais da narrativa, talvez seja a atmosfera melancólica de uma cidade litorânea pequena, ou simplesmente o tom sincero que o filme adota desde os primeiros minutos. Adaptando o livro de Shelby Van Pelt, o longa abraça sem vergonha seu sentimentalismo e encontra força justamente nessa honestidade emocional.

A história acompanha Tova, uma viúva que trabalha no turno da noite de um aquário enquanto carrega silenciosamente o peso da perda do filho e do marido. Sally Field sustenta o filme com uma atuação delicada, transmitindo cansaço, solidão e afeto quase sempre através de pequenos gestos. Há uma humanidade muito natural na forma como ela interpreta essa mulher que parece presa ao passado, incapaz de seguir em frente, mas ainda tentando encontrar algum propósito em sua rotina silenciosa.

Ao lado dela surge Cameron, vivido por Lewis Pullman, um jovem perdido que chega à cidade buscando respostas sobre sua própria origem. O roteiro aproxima os dois de maneira gradual e bastante eficiente, sem pressa para transformar essa conexão em algo grandioso logo de início. Existe uma sensação confortável na convivência entre eles, quase como se o filme entendesse que sua força não está em grandes reviravoltas, mas nos encontros improváveis que ajudam pessoas quebradas a continuarem vivendo.

Mas o diferencial de Criaturas Extraordinariamente Brilhantes está mesmo em Marcellus, o polvo que observa os humanos com uma mistura de ironia, inteligência e curiosidade. Dublado por Alfred Molina, o personagem poderia facilmente cair no exagero fofinho ou numa caricatura emocional barata, mas o filme consegue encontrar um equilíbrio interessante. Seus comentários funcionam tanto como alívio cômico quanto como extensão dos temas centrais da narrativa, especialmente a solidão e a dificuldade de comunicação entre as pessoas.

Ainda assim, o longa nem sempre confia totalmente na própria sensibilidade. A narração em off de Marcellus frequentemente explica emoções e conflitos que já estavam claros nas atuações e nas imagens. Em vários momentos, o filme parece ter medo de que o público não compreenda seus sentimentos sem alguém verbalizando tudo. Isso tira parte da sutileza da experiência e enfraquece algumas cenas que funcionariam melhor apenas no silêncio e na observação.

Visualmente, o filme aposta numa estética acolhedora e levemente nostálgica, reforçando o caráter quase terapêutico da história. O aquário, as ruas da pequena cidade e os ambientes internos ajudam a construir essa sensação de isolamento emocional misturada com esperança. Não há grandes ousadias na direção, mas existe cuidado suficiente para que o espectador se conecte com aquele universo e com seus personagens sem dificuldade.

No fim, Criaturas Extraordinariamente Brilhantes é exatamente o tipo de drama que encontra beleza nas pequenas coisas. Mesmo previsível em alguns caminhos e excessivamente explicativo em outros, o filme compensa isso com coração, bons personagens e uma sinceridade rara em produções desse tipo. É uma história sobre luto, reencontros e sobre como até as conexões mais improváveis podem devolver um pouco de luz para quem já não esperava mais encontrá-la.

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AUTOR

Felipe Fornari

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