Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte

() ‧

06.08.2015

A comédia dramática francesa “Gemma Bovery” (Gemma Bovery, 2014) é um prato cheio para quem gosta de ler e vez ou outra acaba adotando elementos da ficção no seu cotidiano. Como bem explica o trocadilho no título do novo longa de Anne Fontaine, a trajetória da jovem Gemma dialoga com Emma Bovary, a conhecida protagonista de “Madame Bovary”, romance clássico do francês Gustave Flaubert e um marco na literatura ocidental.
A jovem Gemma é recém-casada com Charlie, que acabou de sair de outro casamento por conta da jovem. Ela sempre está entediada, acredita que falta algo em sua vida e busca isso através de aventuras, seja mudando de ares – no filme eles saem de Paris para o interior – ou encontrando novas paixões tão passageiras quanto suas alegrias cotidianas. No longa a saga de Gemma é contada através de seu diário e da memória comentada de Martin Joubert, um editor fracassado que volta para a Normandia, para continuar o ofício de padeiro, herdada pelo pai. Joubert é um exímio observador obsessivo, e como um bom fã de Literatura Realista – Flaubert era considerado pioneiro nessa escola da Literatura – cria mirabolantes interpretações para o que vê.
Um ponto interessante na forma que Fontaine usa para contar a breve saga de Gemma, é que há sempre uma instabilidade na narrativa. A forma que Joubert relata as situações que vê sempre são de um ponto de vista particular, sempre deixando dúvidas se o que acontece na tela é obra de suas obsessões ou são a realidade dos fatos. A ficção do livro de Flaubert é apenas similar às situações vividas por Gemma, quem dá créditos a isso é Martin que anda acompanhado com o livro, tentando provar que o destino fatídico e literário de Bovary pertence à sua jovem vizinha.
A inglesa Gemma Arterton – que tem caído na graça dos papéis de musa no cinema americano – está interessante como a personagem de mesmo nome, apesar de Fontaine também insistir em ângulos e olhares sensuais como se a atriz só soubesse fazer isso, falta um tanto de mistério e determinação que caberia na personagem. Fabrice Luchini como Joubert – que em 2012 fez outro papel relacionado à literatura, o ótimo “Dentro da Casa”, do François Ozon – acaba roubando a cena como o narrador entendiado, que finalmente pode ocupar seus dias com personagens da literatura.
Apesar de “Gemma Bovery” não ser nenhuma nova pérola do cinema francês, ele cumpre muito bem o papel de nos colocar diante do real e da ficção do cotidiano. A vida pode ser apenas uma sequência de fatos, instabilidades e desfechos trágicos e engraçados, mas dependendo do olhar pode ser uma grande história que merece ser recontada e reconhecida de século em século.

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Emanuela Siqueira

OUTRAS CRÍTICAS

Uma Noite de Crime: Anarquia

E o lançamento de terror desta semana fica por conta de Uma noite de crime: Anarquia. Ainda não conhecia a franquia, então confesso que torci o nariz quando ouvi falar desta sequência. Corri ver o primeiro filme - Ethan Hawke, Lena Headey e um conceito futurista bem...

Maestà, a Paixão de Cristo

Às vezes, dependendo do filme, fica difícil de seguir a história e acompanhar o que está acontecendo (tem cada quebra-cabeça nesse mundo cinematográfico!). Imagina então se dividíssemos a telona em 26 partes, e cada uma encerrasse uma parte da história? Pois é, essa é...

Norm e os Invencí­veis

Norm é um urso polar do Ártico dotado de uma estranha habilidade: ele pode se comunicar não somente com os animais mas também com pessoas. Um dia, depois de consultar seu amigo Sócrates, uma gaivota, Norm percebe que sua terra natal está sendo ameaçada pela...