Fuja

() ‧

03.04.2021

Sarah Paulson e Kiera Allen fazem tudo no excelente suspense Fuja da Netflix

A atriz Sarah Paulson ganhou notoriedade em Hollywood por sempre interpretar um certo tipo de personagem, que desde a primeira temporada de American Horror Story até Ratched, transita entre a vítima, a boazinha, a manipuladora, a mentirosa e a cínica. Em Fuja, novo filme da Netflix, não é diferente. O filme abusa do seu estilo de atuação para apresentar a premissa mais familiar do cinema de suspense de obsessão, mas isso é entregue com tantos ganchos bons que o filme se torna parada obrigatória no streaming.

Na trama, Chloe (Kiera Allen) é uma garota de 17 anos que nasceu com complicações de saúde graves, não anda e necessita de cuidados e medicações especiais para continuar vivendo. Sua mãe, Diane (Sarah Paulson), é quem toma conta de todos os detalhes da sua rotina complicada, com remédios, exercícios de respiração, alimentação orgânica e controlada, além de privar a garota de ter um celular ou poder acessar a internet. Ainda com todos estes problemas que gritam a palavra “cativeiro”, Chloe é otimista, inteligente e totalmente capaz de muitas coisas, até desconfiar das boas intenções da mãe. Claro que essa reviravolta já era esperada e o momento não poderia ser mais oportuno, quando Chloe está esperando respostas de suas inscrições para a faculdade e vislumbra um futuro independente.

O suspense do filme ganha muito da sua força pela direção de Aneesh Chaganty, que demonstrou bom desempenho em Busca…, de 2018, e conseguiu fazer de Fuja, um material perfeito, capaz de fazer todo mundo roer as unhas de verdade com as cenas aflitivas de Chloe. Aliás, seria injusto deixar todo o mérito do filme para direção, quando seu elenco é tão brilhante. O destaque vai para a atriz novata Kiera Allen, que faz tudo e mais um pouco para fugir, seja utilizando a cadeira de rodas ou se arrastando pela casa para encontrar alguma solução inusitada, o que é incrível de se ver. Além de também entregar cenas fortes ao lado da intensa Sarah Paulson, sem quebrar nenhum momento.

Histórias sobre relações obsessivas são vistas no cinema desde O Que Teria Acontecido a Baby Jane? de 1962, até o mais recente e perturbador The Act, o drama de 2019 com Patricia Arquette e Joey King, sem deixar de fora a icônica Nazaré da novela Senhora do Destino. Mesmo bebendo muito dessas fontes, o filme não se prende em homenagens, mas busca trazer um mix de sensações que tem sido esquecido em muitos roteiros. Em Fuja, a brincadeira com a cena da farmácia, por exemplo, foi um recurso cômico excelente para dar um respiro às próximas cenas de tensão que acompanhariam o longa.

Com atuações brilhantes e um clima de suspense nostálgico digno de Tela Quente, o filme de Aneesh Chaganty, não se preocupa em se distanciar do óbvio nem de não criar soluções narrativas baratas, porém resgata uma construção de suspense que joga com as sensações para prender sua atenção na tela e assim, faz valer a pena cada minuto investido nesse ótimo filme.

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Felipe Cavalcante

OUTRAS CRÍTICAS

A Luz é para Todos

A Luz é para Todos

A Luz é para Todos surge como um marco do cinema clássico ao abordar de forma direta e corajosa o antissemitismo em uma época em que Hollywood ainda tateava na representação explícita de questões sociais. A premissa é simples, mas poderosa: um jornalista decide se...

Eternos

Eternos

7.000 anos atrás, os deuses cósmicos conhecidos como Celestiais criaram uma raça imortal conhecida como Eternos, para proteger a Terra de seus opostos vilanescos, os Deviantes. Quando os últimos Deviantes são eliminados, os Eternos seguem caminhos separados - mas um...

Sideways: Entre Umas e Outras

Sideways: Entre Umas e Outras

Sideways: Entre Umas e Outras, de Alexander Payne, é uma jornada íntima e agridoce sobre amizade, fracassos pessoais e a busca por significado na meia-idade. A trama gira em torno de Miles (Paul Giamatti), um escritor frustrado e deprimido, e seu melhor amigo Jack...