Existe algo naturalmente simpático em Manual do Herói: antes mesmo de ser uma aventura de super-heróis, o filme parece assumir o prazer de brincar com um gênero que o cinema brasileiro raramente consegue explorar com liberdade. A história de Agnus, um adolescente da Ceilândia que encontra um livro misterioso capaz de despertar poderes em quem decifra sua linguagem, parte de uma premissa bastante conhecida, mas encontra graça justamente ao transportá-la para uma realidade brasileira, com suas próprias limitações e possibilidades.
Fáuston da Silva demonstra conhecer bem os códigos das histórias em quadrinhos e das grandes aventuras de ação. O longa não tenta competir com o espetáculo digital de produções milionárias como Os Vingadores ou Homem-Aranha, e parece entender que seria uma batalha perdida. Em vez disso, procura soluções criativas dentro de seu alcance, utilizando drones, iluminação, montagem e enquadramentos para conferir escala a perseguições e confrontos. Quando a direção encontra essa combinação, há uma energia genuína que faz o filme funcionar muito bem como diversão.

A estrutura também abraça sem vergonha os clichês do gênero. Agnus precisa aprender a lidar com seus poderes, atravessa uma espécie de treinamento, enfrenta adversários progressivamente mais perigosos e caminha até um confronto final que parece retirado diretamente de uma HQ. Há ecos de Rocky, um Lutador e de incontáveis histórias de origem, mas a familiaridade não chega a ser um problema porque o filme nunca tenta esconder suas referências. Pelo contrário, existe uma espécie de entusiasmo juvenil em reproduzir essas fórmulas e acreditar novamente nelas.
O problema é que essa escolha também limita o que Manual do Herói poderia ser. Embora a ambientação brasileira seja importante para sua identidade, a narrativa permanece bastante presa a modelos de super-herói norte-americanos, inclusive em algumas ideias sobre masculinidade, heroísmo e romance. As personagens femininas têm presença e personalidade, mas a trajetória continua organizada fundamentalmente ao redor do rapaz que precisa provar seu valor. A tentativa de conciliar esse imaginário tradicional com uma representação mais contemporânea nem sempre encontra o equilíbrio ideal.
Ainda assim, o universo criado pelo filme tem um charme próprio. Termos e conceitos como “coração de prata”, “nível de conexão” e “canção de baleia” ajudam a construir uma mitologia que não precisa fazer sentido o tempo todo para ser divertida. Existe uma disposição para abraçar o absurdo e permitir que a aventura seja, antes de qualquer coisa, uma aventura. Essa liberdade combina especialmente bem com Agnus, cuja transformação funciona menos como uma fantasia de poder absoluto e mais como uma experiência de amadurecimento.

Nem tudo funciona com a mesma eficiência. Algumas lutas têm boa movimentação e criatividade visual, enquanto outras parecem sofrer com coreografias mais lentas e uma montagem que poderia explorar melhor a velocidade dos confrontos. As cenas envolvendo a relação de Agnus com a mãe também são menos convincentes, tanto pelo desenvolvimento da personagem quanto por algumas decisões dramáticas que parecem mais funcionais para o roteiro do que organicamente construídas. São problemas que impedem o longa de atingir o mesmo nível de inventividade que demonstra em seus melhores momentos.
Mas há mérito considerável em Manual do Herói simplesmente por entender que não precisa parecer um filme de super-herói americano para existir. A produção é independente, tem recursos evidentemente menores e, mesmo assim, encontra maneiras de transformar essas limitações em soluções criativas. O resultado é irregular, ingênuo em alguns momentos e bastante convencional em outros, mas também sincero, divertido e cheio de vontade de contar uma história de herói a partir de um lugar brasileiro. Talvez ainda falte ao cinema nacional encontrar uma linguagem própria para esse gênero; aqui, pelo menos, existe a sensação de que estamos caminhando nessa direção.








