Lanternas – 1ª Temporada

(2026—) ‧ 1h

Antes dos anéis, existem as pessoas

Thais Wansaucheki

Depois de tantas noites densas, chega ao fim, de forma iluminada, a primeira temporada de Lanternas, série da HBO criada por Tom King, Damon Lindelof e Chris Mundy.

A produção acompanha o lendário Lanterna Verde Hal Jordan (Kyle Chandler) e o novo recruta John Stewart (Aaron Pierre). Depois que um tiroteio em massa acontece em uma cidade de Nebraska, Hal se convence de que o ocorrido não foi um simples caso de violência e que existe algo muito maior por trás daquela história. Com John ao seu lado, ele começa a investigar o caso, e o que inicialmente parece ser apenas um caso policial acaba revelando não só uma ameaça à Terra, mas também as diferenças entre os dois heróis.

A primeira coisa que chama atenção em Lanternas é a decisão acertada de não começar tudo do zero. Em vez de voltar às origens dos personagens ou explicar novamente como funciona o universo dos Lanternas Verdes, a série coloca Hal Jordan e John Stewart juntos e permite que o público conheça esses personagens enquanto a própria história avança. É uma escolha que consegue equilibrar quem já acompanha os quadrinhos há décadas com quem está chegando agora ao universo da DC.

Mas, antes mesmo dos anéis, uniformes e ameaças intergalácticas, são as relações humanas que sustentam a série. As atuações de Kyle Chandler, Aaron Pierre e Kelly Macdonald são um dos grandes destaques da temporada. Os personagens são densos, cheios de personalidade e têm espaço para demonstrar suas contradições, fazendo com que a investigação seja também uma oportunidade para entender quem eles são e o que os levou até ali.

E, mesmo com uma história mais contida, a série não deixa de ampliar o universo da DC. Pequenos detalhes ajudam a construir essa sensação, como a revelação de que a cidade natal da xerife Kerry Kane, personagem de Kelly Macdonald, é Gotham City. São elementos que não dominam a trama, mas funcionam como pequenas conexões para um universo que está apenas começando a crescer, e deixam os fãs atentos aos detalhes super satisfeitos.

Outro ponto importante está na maneira como Lanternas trabalha representatividade e questões políticas sem transformar esses elementos em discursos isolados. A trajetória de John Stewart é especialmente importante nesse sentido. Sua história familiar, suas experiências e a maneira como ele encara o mundo ajudam a construir um personagem cuja força não está apenas no anel, mas em quem ele é como pessoa, como humano.

É justamente aí que a série encontra uma de suas melhores características: transformar o que existe de fantástico nos quadrinhos em metáforas para questões bastante reais. Seres de outros planetas, diferenças entre espécies e uma sociedade intergaláctica podem falar, na prática, sobre imigração, diferenças raciais, religiosas e tantas outras formas de desigualdade e convivência. Ao colocar essas questões dentro de uma história de heróis, Lanternas consegue fazer com que elas estejam presentes sem abandonar a aventura.

Talvez por isso a primeira temporada funcione tão bem mesmo sem apostar o tempo todo em grandes efeitos ou sequências espetaculares. A série prefere construir seus personagens, sua investigação e suas relações antes de entregar o impacto visual. E, quando chega ao último episódio, fica a sensação de que ainda há muito a ser explorado. O público certamente vai querer acompanhar esse universo por mais tempo. Afinal, depois de uma temporada que escolheu olhar primeiro para as pessoas por trás dos anéis, fica a curiosidade para descobrir até onde esses Lanternas ainda podem chegar.

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