Cara-de-Barro

(2026) ‧ 1h48

A tragédia de um vilão que nunca se torna monstruosa o suficiente

Pedro Fonseca

“Após ter seu rosto desfigurado por um gangster, o promissor ator Matt Hagen encontra na Dra. Caitlin Bates um pouco mais do que apenas uma nova cara.”

Escrito por Mike Flanagan e Hossein Amini, dirigido por James Watkins, com cinematografia de Rob Hardy, trilha sonora de Volker Bertelmann, e estrelado por Tom Rhys Harries, Naomi Ackie, David Dencik, Max Minghella, Eddie Marsan, Joshua James e Joana Ribeiro, Cara de Barro é uma origem de vilão, com elementos dramáticos e de terror corporal.

Habitantes dos cantos escuros da internet, sejam todos bem-vindos a mais uma crítica lamacenta.

O que uma pessoa se torna quando tudo é tirado dela?

Corrupção, negligência, ganância e loucura lideram o caminho para a ruína de Matt Hagen, um promissor ator que vê sua vida mudar completamente da noite para o dia após dormir com a namorada de um poderoso mafioso que, para se vingar, desfigura Matt, compra e ameaça pessoas ao redor do ator, e ainda financia uma campanha de destruição de reputação, deixando o jovem desolado e sozinho.

A situação começa a mudar quando Matt conhece a Dra. Caitlin Bates, que desenvolve uma tecnologia inovadora de reabilitação celular, o que poderia ajudá-lo a recuperar o rosto, mas acaba desencadeando consequências físicas e psicológicas devastadoras.

Analisando visualmente a obra, é perceptível que os elementos de terror corporal estão muito presentes, desde a desfiguração física causada por terceiros até a definitiva mutação que extrapola os limites, transformando o corpo em algo amorfo e grotesco, além de, claro, instigar o horror e o terror tanto no espectador quanto nos próprios personagens.

Os efeitos visuais são interessantes, transmitem bem a transformação, a capacidade e a maleabilidade do “barro”, ainda que na maior parte do tempo eles, assim como a fotografia, pareçam ser polidos demais para um filme de terror.

No aspecto narrativo encontramos temas interessantes, como identidade, necessidade de reconhecimento, apego emocional, ambição, ganância, ética, moralidade e corrupção nas mais variadas formas, que apesar de não tão bem aprofundados, são instigantes e adicionam uma camada a mais que enriquece a obra cinematográfica.

O roteiro de Cara de Barro possui método e é inteligente, no entanto, a simplicidade do roteiro deveria exigir que os demais elementos como diálogos, atuações, e fotografia fossem superiores para compensá-lo, o que não acontece na medida adequada já que, tanto a carga dramática quanto o desenvolvimento dos personagens apresentados, não alcançaram a expectativa de um filme que propõe inovação e certo nível de grandiosidade ao iniciar um projeto cinematográfico importante como o chamado Capítulo Um: Deuses e Monstros da DCU, etc. Nada ali é profundo o suficiente, nem tão bem performado ou demonstrado fisicamente com a coragem que deveria ter. Além disso, desde o início o roteiro apresenta soluções narrativas muito convenientes, simplistas ou preguiçosas para dar prosseguimento na história, diminuindo um pouco da credibilidade proposta.

Um outro ponto negativo é sobre a humanização dos vilões, que é um recurso narrativo que realmente me incomoda, principalmente quando, sob o pretexto de explicar suas motivações, acaba relativizando a responsabilidade dos seus atos. É compreensível reconhecer que alguém que se tornou cruel já foi uma boa pessoa, compreender seu sofrimento e até nutrir certos sentimentos benevolentes sem que isso signifique absolvê-lo moralmente. O problema se estabelece quando a narrativa borra a distinção entre certo e errado, como se a condição de vilão dependesse meramente da perspectiva de quem está em volta do que das próprias ações do indivíduo. Em Cara de Barro, essa abordagem enfraquece a transformação de Matt Hagen, já que a deterioração física e moral do personagem que deveria tornar sua queda tão trágica quanto perturbadora, perde espaço para essa diluição do impacto moral, pois a construção do vilão é comprometida, sobretudo, pela incapacidade de desenvolver sua trajetória com a profundidade necessária, afinal, quando todos são corruptos ou têm algum nível de maldade dentro de si, a trajetória se torna banal e o resultado desimportante, não é trágica e nem perturbadora.

No entanto, preciso fazer uma ressalva que parece contraditória, mas que complementa a minha crítica. Quando digo que o roteiro é inteligente, me refiro a uma camada metanarrativa que considero interessante: a crítica à maneira como a mídia constrói imagens de heróis e vilões e manipula a opinião pública. Em um rápido momento, Matt assiste, pela televisão, ao mafioso ser retratado como uma boa pessoa, enquanto ele próprio é apresentado como alguém desprezível. Assim temos um indivíduo notoriamente cruel cuja imagem é manipulada para parecer positiva, enquanto alguém que não corresponde a essa representação é condicionado aos olhos do público a parecer monstruoso. A cena evidencia como a percepção coletiva pode ser manipulada a ponto de inverter os papéis de vítima e algoz. O problema é que essa metacrítica, apesar de interessante, funciona como um prenúncio da própria relação que o filme estabelece com o espectador, conduzindo seu julgamento moral dos personagens.

Concluindo, o longa entrega um clímax meramente visual, demonstrando a transformação final de Matt Hagen em Cara-de-Barro, mas sem um ápice narrativo satisfatório, e sim em algo praticamente anticlimático.

Cara de Barro é uma boa tentativa de inovar o gênero de “super-heróis”, possuindo um grande potencial ao narrar a transformação de um uma boa pessoa em um vilão com a roupagem de filme de terror, mas não a desenvolve com a intensidade e profundidade que a história merece.

ONDE ASSISTIR

OUTRAS CRÍTICAS