Um Tio Quase Perfeito 3

(2026) ‧ 1h35

Uma comédia sem consequências

Felipe Fornari

Um Tio Quase Perfeito 3 parte de uma situação que poderia render uma boa comédia sobre responsabilidade, amadurecimento e a dificuldade de aceitar que os filhos e sobrinhos crescem. Tony percebe que seus sobrinhos já não precisam dele como antes, justamente quando um bebê aparece misteriosamente em sua porta e altera completamente sua rotina. A ideia até permite algumas situações divertidas, mas o filme rapidamente escolhe o caminho mais fácil: transformar a chegada de Alice em uma espécie de solução mágica para todos os problemas emocionais do protagonista.

Marcus Majella mantém o carisma que sustenta a franquia, especialmente quando pode explorar a personalidade espalhafatosa de Tony. O problema é que o roteiro parece acreditar que isso basta para transformar qualquer situação em comédia. As reações exageradas, os bordões e o humor físico aparecem com frequência, mas raramente são organizados para produzir uma sequência realmente memorável. Muitas piadas dependem simplesmente de colocar Tony em alguma situação desconfortável e esperar que sua expressão ou seu jeito de reagir façam o trabalho.

A própria chegada do bebê evidencia as fragilidades do roteiro. Uma criança abandonada na porta de alguém deveria desencadear uma série de preocupações práticas e emocionais, mas o filme passa rapidamente por questões que exigiriam muito mais cuidado. Em vez de investigar a situação, os personagens simplesmente incorporam Alice à rotina, enquanto as explicações aparecem quando são necessárias para que a história avance. Essa facilidade acompanha praticamente todas as reviravoltas da narrativa, fazendo com que os conflitos pareçam existir apenas até o momento em que o roteiro decide resolvê-los.

Também é frustrante perceber quantas ideias são apresentadas sem realmente ganhar desenvolvimento. Os sobrinhos, que poderiam assumir um papel importante diante do distanciamento que Tony sente, acabam tendo participação bastante limitada. A fantasia de Marreco Furreco, a peça de teatro e outras situações sugeridas ao longo da história parecem pertencer a versões diferentes do filme. Quando uma possibilidade começa a ficar interessante, outra imediatamente ocupa seu lugar. O resultado é uma narrativa cheia de acontecimentos, mas surpreendentemente pobre em consequências.

Há ainda uma questão mais delicada na maneira como o filme resolve a trajetória de Tony. Um Tio Quase Perfeito 3 parece sugerir que a responsabilidade familiar é aquilo que finalmente dará sentido à vida de um personagem que, até então, resistia a determinadas expectativas. A relação com Alice é genuinamente carinhosa em alguns momentos, mas a transformação poderia ser mais interessante se não parecesse tão automática. Em vez de descobrir uma nova maneira de construir sua vida, Tony acaba sendo conduzido pela narrativa até uma ideia bastante convencional de felicidade.

O humor também sofre com essa falta de complexidade. As referências ao universo de Paulo Gustavo e os momentos de humor físico tentam reproduzir uma comédia popular bastante conhecida, mas muitas situações parecem datadas ou excessivamente artificiais. Isso não significa que uma comédia precise ser realista, mas mesmo o absurdo precisa possuir alguma lógica interna para que o espectador aceite suas regras. Aqui, acontecimentos graves, problemas burocráticos e conflitos familiares são resolvidos com a mesma facilidade de uma piada visual, diminuindo o impacto de todos eles.

No fim, Um Tio Quase Perfeito 3 é uma continuação que possui alguns momentos simpáticos e conta com um protagonista capaz de arrancar risos simplesmente pela presença, mas que pouco faz para justificar sua existência. A chegada de Alice poderia abrir espaço para uma história mais madura sobre Tony e seus sobrinhos, mas o filme prefere uma sucessão de soluções convenientes, fofura e humor físico. É uma produção leve e acessível, mas também excessivamente fácil, que confunde carinho com desenvolvimento e termina oferecendo uma visão de família tão idealizada que pouco sobra de interessante por trás dela.

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