O Outro Lado das Redes

(2026) ‧ 1h52

Entre a denúncia necessária e o sermão digital

Ricardo Feldmann Dotto

Em 2010, A Rede Social capturou o espírito do tempo ao transformar a gênese do Facebook em uma tragédia grega moderna. Era um estudo cortante sobre ambição, arrogância masculina e solidão na era digital. Dezoito anos e infinitas crises de desinformação depois, Sorkin retorna ao universo do Big Tech com O Outro Lado das Redes, mas desta vez sem o contraponto estético e contido de Fincher para refrear seus piores impulsos didáticos.

O resultado é um filme com boas intenções institucionais, mas que falha como cinema ao transformar o debate sobre algoritmos e perigos democráticos em um espetáculo de palestras infladas.

Inspirado nas denúncias reais dos vazamentos da Meta (os Facebook Papers), o longa acompanha a trajetória da denunciante Frances Haugen (interpretada com intensidade por Mikey Madison) e do jornalista Jeff Horwitz (Jeremy Allen White). Juntos, eles tentam expor como as decisões internas do conglomerado de Mark Zuckerberg (Jeremy Strong) priorizaram o engajamento através da raiva, do discurso de ódio e da radicalização política, culminando em impactos reais sobre a saúde mental de adolescentes e na desestabilização democrática.

Se há um pilar que sustenta a projeção, é a atuação do elenco. Jeremy Strong assume Mark Zuckerberg com uma precisão cirúrgica. Evitando ceder à caricatura fácil, Strong entrega uma figura gélida, robótica e sociopática em sua métrica pragmática, encarnando o próprio espírito de um algoritmo desprovido de ética humana.

Mikey Madison continua demonstrando seu talento impressionante, entregando vulnerabilidade e determinação a uma personagem que facilmente cairia no estereótipo do “herói burocrático”. Jeremy Allen White, por sua vez, injeta energia e urgência ao núcleo jornalístico.

Onde O Outro Lado das Redes tropeça é na sua execução narrativa. Sem o rigor visual sombrio de David Fincher ou o ritmo hipnótico da montagem do longa de 2010, Aaron Sorkin assume a direção operando no piloto automático visual. A fotografia de Jeff Cronenweth e a trilha sonora de Alexandre Desplat tentam simular a atmosfera de suspense institucional, mas a direção de cena se resume a personagens caminhando rapidamente por corredores iluminados por LED enquanto cospem monólogos verborrágicos.

O maior defeito do roteiro é encarar o público de 2026 como se ele ainda estivesse descobrindo os riscos da internet.

O filme gasta longos minutos explicando que “o ódio gera mais cliques que a empatia”. Em vez de mostrar a complexidade da psicologia das redes, Sorkin prefere dar aulas morais através da boca dos seus protagonistas.

Em um cenário contemporâneo saturado por discussões sobre inteligência artificial, deepfakes e desinformação, a constatação de que o algoritmo do Facebook favorece conteúdos inflamáveis soa como uma denúncia requentada.

A narrativa culmina no ato da denúncia pública, mas falha em explorar o cinismo do “pós-vazamento”, onde a corporação continua operando e lucrando, evidenciando uma sensação de impotência que o filme não consegue problematizar esteticamente.

O Outro Lado das Redes funciona como um registro histórico bem atuado das entranhas da Meta e da coragem dos denunciantes. No entanto, enquanto cinema, fica preso à própria verborragia teatral de Aaron Sorkin. Em vez de instigar uma reflexão profunda sobre o nosso papel na engrenagem digital, a obra escolhe simplificar o problema e apontar o dedo, deixando a incômoda sensação de que fomos chamados ao cinema apenas para assistir a um tribunal moral em que já conhecíamos o veredito.

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