O Bosque Selvagem

(2026) ‧ 2h12

Um espetáculo de stop-motion perdido em uma narrativa dispersa

Felipe Fornari

“Após uma revoada de corvos sequestrar o indefeso bebê Mac e levá-lo para dentro do bosque impassável, sua irmã Prue e o amigo Curtis vão ao seu resgate sem saber o tamanho dos perigos e aventuras que estão pela frente”.

Escrito por Chris Butler, baseado na obra de Colin Meloy e Carson Ellis, dirigido por Travis Knight (Bumblebee), estrelando Peyton Elizabeth Lee, Jacob Tremblay (Extraordinário), Carey Mulligan (Saltburn), Mahershala Ali (Green Book – O Guia) e grande elenco, O Bosque Selvagem é um épico de animação belíssimo visualmente.

Habitantes de áreas restritas e intransponíveis por aqueles que não carregam mágica consigo, sejam todos muito bem-vindos a mais uma crítica animada.

Prue está crescendo, e já não gosta de ouvir as histórias de fantasia sobre o “bosque em que não se deve entrar” que seu pai conta no café da manhã. Após uma saudável discussão em família, Prue fica responsável por cuidar de seu irmão, com ordem de não saírem de casa enquanto seus pais estiverem fora.

Rebelde e desobediente, ela leva seu irmão por um passeio em Portland, e após esbarrar em Curtis, vão para um parquinho, onde Mac é sequestrado por um bando de corvos. Com medo e remorso, eles perseguem os corvos até a entrada do bosque impassável das histórias de seu pai, mas, sem perceber, um caminho abre, e eles adentram a floresta e partem para novas aventuras.

A impressão inicial do filme é de que não importa a classificação dele (13 anos/adolescentes), não parece ser saudável para crianças ou mesmo pré-adolescentes, – principalmente sem a companhia de um adulto – assistirem. A primeira cena é literalmente um menino nu cometendo suicídio, algo super forte e traumático. Sendo um adulto assistindo a uma animação já é de ficar impactado com a cena, imagine um menor de idade. É de se pensar qual o interesse em submeter o público a situações tão explícitas, principalmente em uma animação. E ao longo das duas horas, existem outras cenas explícitas, além de temas mais maduros, que não necessariamente são um problema, mas expõem pessoas imaturas a assuntos que possivelmente elas não têm a capacidade de compreender, ou não tenham a necessidade de entrar em contato.

Tecnicamente, a animação é extraordinária, o estilo em stop-motion foi elevado ao máximo, além de ter sido reforçado por efeitos visuais digitais, e com exceção de poucos momentos em que a câmera se movimenta e tudo fica borrado por muito tempo, o filme, nesse aspecto, foi impecável. A LAIKA, responsável por Coraline e o Mundo Secreto, ParaNorman e Kubo e as Cordas Mágicas, demonstra novamente domínio sobre a animação em stop-motion, explorando texturas, materiais, iluminação e movimentos que conferem muita personalidade própria ao universo apresentado.

A narrativa é o maior problema do filme, a premissa é simples, porém, ao invés de transformar a jornada em algo linear, centrado e épico, o filme ramifica demais, dispersando a atenção do público, além de também não se aprofundar o suficiente em tudo que apresenta, no final, apesar de compreensível, não fica clara a principal motivação do filme, nem a moral da história.

Parece que o filme prefere impactar pela violência e apenas sugerir parte dos elementos narrativos, em vez de desenvolver um roteiro maduro e focado. Essa escolha tira densidade da história e deixa uma sensação de insuficiência.

A maneira como descobrimos a razão de Prue possuir mágica, resgata os pais na história, deixando eles um pouco mais complexos, porém, é infantil e deslocado, gasta tempo demais na tela, e se dá em um quase “Deus Ex Machina”.

Ainda que a cena também ajude a esclarecer parcialmente a motivação da antagonista, ainda assim, demora tempo demais até ser revelada, e não justifica por completo.

“Aproveite bem enquanto é criança ou adolescente?” Toma aqui seu suicídio, sua morte explícita, ou o personagem bobinho matando alguém. Existem diversas mensagens como “seja quem você é”, “aproveite o momento”, “aprecie as pessoas enquanto elas estão aqui”, “supere seus traumas”, “amadureça na presença de um obstáculo”, mas o ponto central que faz tudo fazer sentido é um tanto quanto diluído e enfraquecido ao longo das duas horas de filme. Além disso, a clara tentativa de ser uma produção multicamada, apesar de bem-vinda, não funciona, sobretudo pela intensidade das cenas mais fortes e pesadas para algo focado em adolescentes, e para os adultos as cenas demasiadamente infantis.

No fim, O Bosque Selvagem é uma aventura de grande riqueza visual, mas com uma narrativa irregular. Vale a pena pela criatividade e pelo trabalho artesanal, embora não alcance o mesmo nível de excelência na construção da história.

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