Uma mulher chega a uma cidade desconhecida e descobre que o apartamento indicado em uma carta deixada pela avó já está ocupado por alguém surpreendentemente parecido com ela. A partir dessa situação improvável, Ana, En Passant, dirigido por Fernanda Salgado, constrói uma narrativa que flerta com o realismo mágico para investigar questões de identidade, pertencimento e memória. Ana e Alice, interpretadas pela mesma atriz, parecem existir em espaços distintos, mas carregam experiências e sentimentos que as aproximam muito além da semelhança física. O encontro entre elas se transforma em uma jornada delicada de reconhecimento, na qual descobrir o outro significa também confrontar partes de si mesmas que permaneceram escondidas.
A relação entre as duas personagens ganha significado justamente pelas contradições que representam. Uma vem da França, a outra está estabelecida no Brasil; uma parece estar em busca de um lugar ao qual pertencer, enquanto a outra atravessa um período de recolhimento provocado pela gravidez. Suas diferenças, entretanto, não impedem que compartilhem inseguranças, desejos e uma ligação que parece anteceder o próprio encontro. A possibilidade de serem duas manifestações de uma mesma identidade amplia a dimensão simbólica da história, aproximando passado e presente, ancestralidade e futuro, maternidade e filiação. Mais do que resolver o mistério que envolve essa duplicidade, o filme prefere explorar aquilo que ela desperta emocionalmente.

Existe uma beleza particular na maneira como Fernanda Salgado transforma a distância geográfica em uma forma de conexão afetiva. Os mapas, presentes na abertura e no encerramento, funcionam como metáforas de trajetórias que não necessariamente separam as pessoas, mas podem revelar caminhos que já estavam ligados. A herança familiar deixa de ser apenas uma lembrança transmitida entre gerações e passa a representar uma espécie de cartografia emocional, capaz de aproximar mulheres que compartilham experiências mesmo sem terem consciência disso. Nesse sentido, o filme também encontra uma maneira sensível de abordar a experiência de mulheres negras, construindo uma relação de cuidado e reconhecimento que atravessa fronteiras e temporalidades.
É na animação, porém, que a produção revela sua personalidade mais interessante. Longe de se limitar a um estilo visual uniforme, Salgado e sua equipe combinam diferentes técnicas, explorando recortes, desenhos, pinturas e imagens que parecem ganhar vida a partir de materiais concretos. Há uma inventividade muito bonita nesses momentos, especialmente quando o corpo humano se mistura aos elementos da natureza ou quando objetos cotidianos revelam sua própria materialidade. A animação não serve apenas para tornar possível aquilo que seria inviável em uma filmagem convencional; ela estabelece uma relação particular com a realidade, deslocando suas formas sem abandonar completamente o mundo reconhecível. É uma escolha estética que combina com a proposta de personagens cuja identidade também parece existir entre diferentes possibilidades.
Essa liberdade visual encontra correspondência em uma narrativa que rejeita a pressa. Ana e Alice não precisam cumprir uma missão urgente ou superar obstáculos sucessivos para justificar sua convivência. O filme encontra interesse nos diálogos prolongados, nos silêncios, nos momentos de contemplação e na simples experiência de compartilhar o tempo. Essa decisão confere à obra uma atmosfera acolhedora, mas também provoca certa irregularidade. O ritmo se torna especialmente arrastado em seu trecho central, quando a ausência de conflitos mais definidos faz com que algumas situações pareçam se prolongar além do necessário. A conclusão, por sua vez, chega de maneira um pouco abrupta, reforçando a impressão de que a diretora estava mais interessada na experiência do percurso do que em oferecer uma resolução convencional.

Nem todas as escolhas narrativas alcançam a mesma naturalidade. Embora a contenção das personagens seja coerente com o universo construído, alguns diálogos soam excessivamente explicativos ou pouco espontâneos, como se existissem principalmente para transmitir informações ao espectador. Essa rigidez também aparece em determinadas interações, que poderiam ganhar mais fluidez e espontaneidade. Há uma distância curiosa entre a liberdade formal da animação e a maneira mais controlada como as personagens se expressam. Ainda assim, o filme demonstra sensibilidade ao evitar explicar completamente os sentimentos e as motivações de suas protagonistas. Nem tudo precisa ser verbalizado para que a conexão entre elas seja compreendida, e essa confiança nos gestos e nas imagens está entre seus maiores acertos.
Ana, En Passant é, acima de tudo, um filme sobre a possibilidade de encontrar no outro uma parte de nós mesmos que parecia perdida. Sua narrativa pode ser contemplativa demais, e algumas limitações dos diálogos impedem que a experiência alcance uma fluidez maior, mas a delicadeza de seu olhar e a criatividade de sua linguagem visual compensam essas fragilidades. Fernanda Salgado constrói uma obra que não busca respostas definitivas para as questões de identidade, memória e ancestralidade, preferindo acolher suas ambiguidades. Ao final, permanece a sensação de que determinados encontros não acontecem simplesmente por acaso: às vezes, precisamos reconhecer alguém aparentemente desconhecido para compreender melhor os caminhos que nos trouxeram até aqui.







