Hamlet

(1948) ‧ 2h34

11.06.1948

O "Hamlet" de Laurence Olivier está entre as maiores entidades cinematográficas

Fazer uma pesquisa por “Hamlet” é um desafio. Só no IMDb são mais de 70 resultados, o que revela quão popular tem sido adaptar a peça de Shakespeare para o cinema. Desde o cinema mudo até hoje, versões de “Hamlet” foram feitas e refeitas de todas as formas possíveis. Atores de toda magnitude já interpretaram o personagem, às vezes transformando um filme em uma produção grandiosa. No entanto, de todos estes “Hamlets”, dois se destacam dos outros: a versão de Laurence Olivier, de 1948 – a única adaptação de Shakespeare a ganhar o Oscar de Melhor Filme – e a interpretação de Kenneth Branagh, de 1996.

Considerando que 90% de quem assiste a qualquer produção de “Hamlet” já conhecerá toda a história, a chave para o sucesso está na visão que o diretor traz para sua adaptação. Assim, a versão de 1948 se destaca. As decisões de Olivier cortam cerca de 40% da versão integral da história. O resultado é um “Hamlet” simplificado, com foco na turbulência interna do personagem principal e em sua interação com Claudius (Basil Sydney) e Gertrude (Eileen Herlie).

Um problema desses cortes é que essas cenas são responsáveis pela maior parte da comédia. Sem eles, essa versão de “Hamlet” é apenas um conto sombrio. Olivier tenta aliviar um pouco as coisas, mas em geral, porém, esta é considerada uma das versões mais obscuras do enredo. Talvez o preto & branco ajude com isso, sendo visto hoje em dia, tantos anos depois do seu lançamento.

Muitas vezes, as versões cinematográficas parecem apenas transferências elaboradas da peça para o filme. Esse não é o caso aqui. Olivier utiliza muitos dos avanços fotográficos criados para “Cidadão Kane”, e ocasionalmente passa com a câmera de uma sala para outra no castelo, apenas para enfatizar o tamanho dos cenários.

Embora a história central de Hamlet – a de um príncipe indeciso que hesita entre vingar o pai morto, que pode ter sido assassinado por seu tio, ou seguir em frente com sua vida – permaneça no centro do filme, algumas cenas que Olivier elegeu destacar merecem menção.

O relacionamento de Hamlet com Ophelia (Jean Simmons), que em algumas outras interpretações foi enfatizado como um caso de amor trágico, é minimizado aqui, com a ideia de qualquer afeto verdadeiro sendo descartado.

Por outro lado, Olivier é fascinado pelo potencial edipiano na relação entre Hamlet e sua mãe – algo que ele coloca em itálico ao fazê-los beijar-se na boca várias vezes. Somando-se à natureza estranha dessa dupla está o fato de que, na época das filmagens, Olivier tinha 40 anos e a atriz que interpreta Gertrude, Eileen Herlie, era 11 anos mais nova. Nem a maquiagem consegue esconder a obviedade dela não ter idade para ser mãe dele.

Ao assistir a versão artística e bem-sucedida de Olivier, é possível avaliar quão grandes podem ser as diferenças mesmo entre obras-primas. O “Hamlet” de Olivier não é igual aos demais. Todos os “Hamlets” não são criados da mesma forma e, quando se trata de entidades cinematográficas, o “Hamlet” de Olivier está entre os maiores. Além do mais, está nessa cobiçada posição de ganhador do Oscar, desde 1949.

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AUTOR

Felipe Fornari

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