Sem Chão

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"Sem Chão" traz a visceralidade brutal com que o exército israelense trata os palestinos da Cisjordânia há gerações

Emanuela Siqueira

Provavelmente uma das melhores traduções para títulos de filmes nos últimos anos, Sem Chão se anuncia como algo que de fato é: gerações de pessoas palestinas – aqui, especificamente a região da Cisjordânia – que filmam suas condições de nomadismo forçado, também conhecido como o resultado do sionismo colonizador praticado por Israel há mais de meio século na região. A condição de não ter chão remete a vários sinônimos em português brasileiro como sem terra e sem teto, nada incomum no campo ou na cidade desse país enorme. Portanto, o que se passa na Palestina não é distante de nós e Sem Chão deve ser sim esse nó na garganta das imagens que tremem e correm pela tela.

Dirigido por quatro pessoas, duas palestinas e duas israelenses, o filme carrega um tipo de protagonismo entre o ativista palestino Basel Adra e o jornalista israelense Yuval Abraham. Basel cresceu com sua imagem diante das câmeras caseiras, não pelos motivos corriqueiros de registros de crianças e famílias, mas por estar crescendo em território de violenta ação sionista e o pai ser um ativista. Apesar de tudo e de tanto, Basel cresce, estuda, e trabalha na construção civil para se graduar em Direito. Mas que lugar existe para o advogado Basel, um homem jovem palestino que vive diante do ataque iminente de ser arrastado pelo exército robótico de Israel, se a sua luta mais básica envolve ajudar famílias desesperadas, que veem suas casas sendo demolidas por tratores, se mudarem para cavernas da região como viviam há centenas de anos atrás? O que vemos diante da tela é a ausência de dignidade e não dá para simplesmente levantar e sair da sala, só resta engolir a seco a nossa posição de quem assiste. O que fazemos depois de um filme como Sem Chão?

As imagens vão do brutal – um jovem que perde os movimentos diante dos nossos olhos ou outro que é alvejado por tiros de colonos junto com militares – ao sentimento de camaradagem sonhadora entre Yuval e Basel. Porém, quem idealiza é sempre aquele que vem do lado colonizador e que, apesar de sua real vontade de mudança, não entende como a luta exige paciência e ganhos pontuais ao transcorrer do tempo. As conversas entre os dois expõem a grande fenda que há entre gerações que cresceram tão próximas geograficamente mas foram expostas a condições extremamente diferentes. Ficamos nos questionando se há algum ponto possível para tentativas de pacificação. Esse questionamento também surge quando o filme ganha o Oscar de 2025, na categoria de melhor documentário: os discursos de Basel e Yuval são bem diferentes. Recomendo escutar o comentário da pesquisadora e crítica de cinema Carol Almeida sobre esse discurso e os pontos que juntam e afastam essa construção no filme.

Sem Chão apresenta trechos de alguns anos antes de outubro de 2023, quando se intensificaram os ataques de Israel, especialmente na Faixa de Gaza. É um excelente filme para ver de perto como o que a imprensa hegemônica mostra não é um ponto de ruptura em um momento de paz, e sim sucessivos e intermitentes ataques a gerações de palestinos que são desqualificados como seres humanos diante da lógica sionista. O que mais atravessa, no entanto, é a capacidade que essas pessoas têm de gritar, se desesperar, levantar, reconstruir, sorrir, seguir suas tradições e insistir em se manter vivas. As imagens precisam circular e a luta seguir em frente.

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