Frida é um retrato colorido e doloroso de uma das figuras mais emblemáticas da arte do século XX. A direção de Julie Taymor mergulha com intensidade na vida conturbada de Frida Kahlo, pintora mexicana cuja existência foi marcada por traumas físicos, amores turbulentos e uma produção artística visceral. Mais do que uma biografia tradicional, o filme busca reproduzir sensações — como se a própria tela do cinema fosse uma extensão das telas de Frida.
Salma Hayek entrega uma performance carregada de paixão e empenho, evidenciando o quanto o projeto era pessoal para ela. Seu carisma é inegável, e sua entrega à personagem emociona. No entanto, paira uma tensão constante entre a figura real de Frida e a idealização de Hayek. A Frida do filme é mais polida, mais sensualizada — o que nem sempre casa com a angústia crua e sem retoques que define a obra da artista. Essa suavização da aparência e do sofrimento físico da pintora, mesmo diante da excelente produção, tira um pouco da autenticidade do retrato.

Ainda assim, Frida não deixa de ser fascinante em sua tentativa de capturar a força de uma mulher que recusou viver segundo os padrões. A relação entre Frida e Diego Rivera, interpretado com vigor por Alfred Molina, é um dos pontos altos do filme: caótica, simbiótica e carregada de afeto, traições e admiração mútua. É um relacionamento que se constrói tanto no campo pessoal quanto no artístico, como se ambos só pudessem existir plenamente quando juntos — mesmo que essa união lhes custasse a paz.
Visualmente, o filme é deslumbrante. Taymor enche a tela com cores vibrantes, efeitos visuais inspirados nas pinturas de Frida e composições cuidadosamente estilizadas que misturam o real com o onírico. Há cenas em que quadros ganham vida ou que a dor física é expressa com recursos simbólicos — elementos que enriquecem a narrativa e aproximam o espectador do universo particular da artista. É aqui que Frida mais brilha: quando assume sua estética expressionista e nos convida a ver o mundo com os olhos da pintora.
Apesar de seus méritos, o filme não escapa de um certo engessamento típico de cinebiografias. Há momentos em que a história parece mais interessada em ticar eventos importantes da vida de Frida do que em explorar suas nuances. A inclusão de figuras históricas como Leon Trotsky (Geoffrey Rush) e Tina Modotti adiciona contexto, mas nem sempre contribui para o aprofundamento da protagonista. Parece haver um desejo de abarcar tudo — o que, paradoxalmente, acaba diluindo parte da potência emocional.

Outro ponto curioso é a forma como o filme lida com o corpo de Frida. O contraste entre a sensualidade quase cinematográfica da atriz e a dor constante vivida pela artista nunca se resolve por completo. A beleza de Hayek, por vezes, parece encobrir o sofrimento físico que foi central na trajetória da personagem. A ausência de detalhes como o famoso buço de Frida — um traço marcante de sua identidade visual — escancara uma certa tentativa de suavizar ou tornar mais “palatável” a figura que o filme pretende homenagear.
No fim das contas, Frida é uma obra visualmente rica e emocionalmente potente, que celebra uma mulher à frente de seu tempo — ainda que o faça por meio de certos filtros estéticos que domesticam a sua rebeldia. É um filme que instiga, que emociona, mas que também levanta perguntas sobre o que estamos dispostos a suavizar quando decidimos transformar vidas intensas em narrativas para o cinema. Talvez essa contradição também diga algo sobre o próprio legado de Frida: uma artista cuja arte jamais se dobrou à conveniência.





