A Última Sessão de Cinema

(1971) ‧ 1h58

25.12.1971

"A Última Sessão de Cinema": A última sessão em preto e branco

A Última Sessão de Cinema é uma crônica amarga de uma América interiorana que agoniza em silêncio. Situado em Anarene, uma cidade fictícia do Texas no início da década de 1950, o filme dirigido por Peter Bogdanovich nos apresenta um recorte da juventude e da decadência de uma comunidade que parece ter parado no tempo — tanto em seus costumes quanto em suas esperanças. Com um realismo quase documental e o uso simbólico do preto e branco, o longa expõe os desejos reprimidos, as frustrações constantes e os afetos tortos de uma cidade onde nada realmente floresce.

Baseado no romance de Larry McMurtry, o filme acompanha principalmente Sonny e Duane, dois adolescentes prestes a terminar o ensino médio em meio a uma rotina desbotada. Enquanto Duane tenta seguir o caminho esperado — namorar a garota mais bonita da cidade e eventualmente entrar para o exército —, Sonny embarca em um caso com a solitária Ruth Popper, esposa do treinador local. O escândalo que se desenha não é apenas sexual ou moral: é a manifestação do tédio corrosivo presente em cada esquina de Anarene.

O que torna A Última Sessão de Cinema tão sensacional é sua capacidade de transformar os cenários mais banais — uma lanchonete, uma sala de cinema, uma estrada poeirenta — em retratos emocionais dos personagens. O café de Sam the Lion, o dono da moral e da memória da cidade, é um desses lugares onde o tempo parece suspenso. A morte de Sam não é apenas uma virada narrativa, mas o prenúncio simbólico do colapso definitivo daquela comunidade e do que ela representava.

A juventude em Anarene é marcada pela falta de perspectiva e pela ausência de exemplos sólidos. Jacy, interpretada por uma jovem e incisiva Cybill Shepherd, é o rosto bonito de uma geração cínica, que aprende cedo que o amor é moeda e que o sexo pode ser apenas mais uma transação. Ruth, vivida por Cloris Leachman em performance consagradora, representa o outro lado da mesma moeda: uma mulher que envelheceu sem nunca ter vivido de verdade, que se agarra a Sonny não por amor, mas por medo do vazio.

O título do filme não é acidental. A “última sessão de cinema” é o epílogo melancólico de uma era — não apenas da juventude dos personagens, mas do próprio ritual coletivo de ir ao cinema. A popularização da televisão, que já começava a transformar os hábitos nos anos 1950, funciona como pano de fundo silencioso para a fragmentação do senso de comunidade. O cinema da cidade, antes um ponto de encontro, é agora apenas mais uma estrutura condenada ao abandono.

Ao filmar em preto e branco, Bogdanovich evoca não só o passado recente do cinema clássico, mas também uma paleta emocional que reforça o esvaziamento de cor — literal e simbólico — daquela cidade e daqueles personagens. A ausência de trilha sonora composta especialmente pro filme também intensifica a sensação de realismo e de desamparo, tornando A Última Sessão de Cinema um retrato nu e cruel da passagem do tempo e do fim de uma inocência que talvez nunca tenha existido.

Vencedor de dois Oscars, o filme permanece como uma obra-chave para se entender não apenas a década de 1950 retratada, mas também o cinema americano dos anos 1970, que ousou olhar para dentro com lentes mais críticas e menos idealizadas. A Última Sessão de Cinema é, afinal, sobre os ecos que restam quando as luzes se apagam e a tela se fecha — e ninguém sabe se valeu a pena ter assistido ao que foi projetado.

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AUTOR

Felipe Fornari

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