A Garota do Adeus é uma comédia romântica escrita por Neil Simon que carrega tanto o charme típico de suas peças quanto os vícios do teatro. A trama acontece a partir de uma situação inusitada: uma ex-dançarina, recém-abandonada pelo namorado, é forçada a dividir o apartamento com um ator excêntrico e barulhento. A convivência forçada, é claro, se transforma em conflito — e depois em afeto — dentro de uma narrativa que segue o manual da comédia de opostos com precisão quase matemática.
Dirigido por Herbert Ross, que no mesmo ano comandou Momento de Decisão, o filme aposta no carisma de seus protagonistas para compensar a previsibilidade do roteiro. Marsha Mason entrega uma performance simpática como Paula, a mulher desencantada com o amor mas ainda cheia de personalidade. Já Richard Dreyfuss — que ganhou o Oscar pelo papel — parece à vontade como Elliot, o ator teatral e dramático até fora dos palcos. A dinâmica entre eles funciona como uma dança de espinhos, entre sarcasmo, irritação e uma crescente cumplicidade.

A força da comédia está nos diálogos espirituosos, recheados de tiradas ácidas. No entanto, esse humor rápido nem sempre serve ao desenvolvimento dos personagens, muitas vezes reduzidos a marionetes de frases de efeito. A filha precoce de Paula (vivida por Quinn Cummings, indicada ao Oscar) completa o trio com sua sagacidade artificial — mais uma peça do quebra-cabeça que beira a caricatura.
O ponto alto, e também mais polêmico, do filme talvez seja a montagem de Ricardo III que Elliot ensaia, interpretando o personagem de forma afetada e exagerada. A escolha de fazer do clássico de Shakespeare uma sátira traz alguma inventividade cômica, mas também envelheceu mal, deixando um gosto agridoce na tentativa de humor.
Visualmente, o longa é pouco inspirado. A direção de Ross é funcional, mas carece de qualquer risco ou frescor estético. A ambientação limitada ao apartamento e alguns espaços nova-iorquinos remete mais a um episódio estendido de uma sitcom do que a uma obra cinematográfica memorável. Mesmo assim, há um calor humano que atravessa as limitações da encenação — um mérito mais do elenco do que da realização.

Não deixa de ser curioso que A Garota do Adeus tenha sido indicado ao Oscar de Melhor Filme, num ano em que concorria com títulos como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e Júlia. O sucesso comercial e a leveza do tom podem ter conquistado os votantes, mas o filme está longe da sofisticação que se esperaria de um indicado nessa categoria.
Apesar de suas falhas, A Garota do Adeus tem seu valor como entretenimento, um produto simpático de seu tempo. Para quem aprecia o humor afiado de Neil Simon e quer ver Richard Dreyfuss em um de seus momentos mais vibrantes, a experiência ainda é válida — desde que as expectativas estejam alinhadas com o que ele realmente é: um romance embalado com tiradas afiadas e uma dose generosa de nostalgia.







