Com uma mistura precisa de memória pessoal e análise política, Democracia em Vertigem se destaca como um dos mais potentes e sensíveis retratos da recente história brasileira. Dirigido por Petra Costa, o documentário vai além do registro factual: é uma tentativa sincera de compreender os caminhos tortuosos que levaram à erosão das instituições democráticas no Brasil e à ascensão de um discurso político radical.
A escolha de Petra como narradora e protagonista é uma das forças do filme. Sua voz, sempre presente, não busca ser imparcial — e isso é, na verdade, parte do ponto. Ao assumir uma perspectiva subjetiva e confessional, a diretora insere sua própria história familiar — entre a elite industrial e a militância de esquerda — como reflexo da contradição de um país que vive entre opostos irreconciliáveis. Essa dualidade, longe de enfraquecer a análise, dá corpo e emoção ao que poderia ser apenas mais uma crônica política.

O documentário cobre eventos-chave, como os mandatos de Lula e Dilma Rousseff, o processo de impeachment da presidente e a prisão do ex-presidente petista. O acesso íntimo a figuras centrais da política nacional impressiona: imagens dos bastidores no Palácio da Alvorada, cenas nos corredores do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, momentos pessoais com Dilma e Lula — tudo compõe uma narrativa de proximidade rara, que humaniza personagens frequentemente tratados de forma caricatural na mídia.
Visualmente, o filme se destaca pelo contraste entre planos abertos, que capturam a monumentalidade dos prédios de Brasília ou manifestações em massa, e planos fechados e íntimos, que revelam o silêncio, o cansaço e a tensão de quem viveu o centro do furacão político. A montagem habilidosa alterna imagens de arquivo e registros atuais de maneira fluida, sem deixar a narrativa perder o ritmo ou o impacto emocional.
O texto narrado por Petra, poético e melancólico, reforça a sensação de que estamos assistindo à história de um país que se perdeu de si mesmo. Há dor em cada palavra, mas também há um desejo genuíno de entendimento. Ao invés de tentar simplificar a complexidade do cenário político, Democracia em Vertigem abraça as ambiguidades, os desconfortos, as rupturas internas — da narradora e da nação.

Outros críticos podem acusar o filme de parcialidade, mas essa crítica perde força diante da honestidade com que Petra assume sua posição. Não se trata de oferecer todas as respostas, mas de compartilhar dúvidas, perplexidades e alertas sobre os riscos de fragilizar as estruturas democráticas em nome de soluções imediatistas.
No fim, Democracia em Vertigem é menos um documento para encerrar debates e mais uma provocação para iniciá-los. Em tempos de versões polarizadas e fake news, o gesto de olhar para a própria história com coragem e vulnerabilidade é, por si só, um ato político. E um gesto cinematográfico que ressoa muito além das fronteiras do Brasil.





