Tijolo por Tijolo se constrói a partir da intimidade de uma família que, mesmo em meio ao caos urbano, à pandemia e à precariedade, decide reerguer seu lar com as próprias mãos — literal e simbolicamente. Dirigido por Quentin Delaroche e Victória Álvares, o documentário acompanha a rotina de Cris e sua família no Ibura, periferia de Recife, após serem obrigados a abandonar a antiga casa por risco de deslizamento. A obra parte de um cenário de escombros para registrar um processo de reconstrução que é também emocional, identitário e coletivo.
O filme encontra força no modo como entrega a câmera aos seus personagens. Quando Cris ou seus filhos registram o cotidiano, o documentário adquire um tom íntimo e quase artesanal, aproximando o público de uma realidade muitas vezes distante da grande mídia. Essa abordagem orgânica traz humanidade para a narrativa e evita o olhar externo e intervencionista que muitas obras do gênero acabam adotando. A espontaneidade da família Ventura se torna o maior trunfo do filme.

Ainda assim, Tijolo por Tijolo enfrenta limitações formais em seus trechos mais convencionais. Quando retoma o controle da câmera, o documentário perde um pouco da potência visual e estética alcançada nos registros pessoais. A ausência de maiores ousadias narrativas pode tornar a experiência um tanto previsível, mas é compensada pela sensibilidade dos temas abordados e pela naturalidade dos depoimentos.
O ponto de vista de Cris — mulher, mãe, empreendedora e influenciadora digital — dá forma a uma série de reflexões sobre maternidade, direito ao próprio corpo e luta por dignidade em meio a um sistema que insiste em silenciar vozes periféricas. Sua busca por uma laqueadura é apresentada sem didatismo, com honestidade e afeto, revelando as barreiras burocráticas e culturais enfrentadas por tantas mulheres no país. É com humor e determinação que ela conquista o público.

A metáfora da casa em construção atravessa toda a narrativa. Cada tijolo erguido é uma afirmação de existência, de pertencimento e de esperança. O nascimento da pequena Yasmin, filmado com crueza e ternura, funciona como ápice emocional do documentário, selando o ciclo de superação vivido pela família. A cena traduz, sem necessidade de palavras, o sentido de continuidade e resistência que embala toda a obra.
Com simplicidade e afeto, Tijolo por Tijolo celebra a potência da coletividade e da reconstrução — tanto de espaços físicos quanto de sonhos. É um filme que, mesmo consciente de suas limitações formais, encontra brilho na coragem de seus personagens e na força dos laços que os mantêm unidos. Depois do desabamento, resta sempre a possibilidade de reerguer algo novo.







