Tijolo por Tijolo

(2024) ‧ 1h43

06.08.2025

"Tijolo por Tijolo": Reconstruir é resistir

Tijolo por Tijolo se constrói a partir da intimidade de uma família que, mesmo em meio ao caos urbano, à pandemia e à precariedade, decide reerguer seu lar com as próprias mãos — literal e simbolicamente. Dirigido por Quentin Delaroche e Victória Álvares, o documentário acompanha a rotina de Cris e sua família no Ibura, periferia de Recife, após serem obrigados a abandonar a antiga casa por risco de deslizamento. A obra parte de um cenário de escombros para registrar um processo de reconstrução que é também emocional, identitário e coletivo.

O filme encontra força no modo como entrega a câmera aos seus personagens. Quando Cris ou seus filhos registram o cotidiano, o documentário adquire um tom íntimo e quase artesanal, aproximando o público de uma realidade muitas vezes distante da grande mídia. Essa abordagem orgânica traz humanidade para a narrativa e evita o olhar externo e intervencionista que muitas obras do gênero acabam adotando. A espontaneidade da família Ventura se torna o maior trunfo do filme.

Ainda assim, Tijolo por Tijolo enfrenta limitações formais em seus trechos mais convencionais. Quando retoma o controle da câmera, o documentário perde um pouco da potência visual e estética alcançada nos registros pessoais. A ausência de maiores ousadias narrativas pode tornar a experiência um tanto previsível, mas é compensada pela sensibilidade dos temas abordados e pela naturalidade dos depoimentos.

O ponto de vista de Cris — mulher, mãe, empreendedora e influenciadora digital — dá forma a uma série de reflexões sobre maternidade, direito ao próprio corpo e luta por dignidade em meio a um sistema que insiste em silenciar vozes periféricas. Sua busca por uma laqueadura é apresentada sem didatismo, com honestidade e afeto, revelando as barreiras burocráticas e culturais enfrentadas por tantas mulheres no país. É com humor e determinação que ela conquista o público.

A metáfora da casa em construção atravessa toda a narrativa. Cada tijolo erguido é uma afirmação de existência, de pertencimento e de esperança. O nascimento da pequena Yasmin, filmado com crueza e ternura, funciona como ápice emocional do documentário, selando o ciclo de superação vivido pela família. A cena traduz, sem necessidade de palavras, o sentido de continuidade e resistência que embala toda a obra.

Com simplicidade e afeto, Tijolo por Tijolo celebra a potência da coletividade e da reconstrução — tanto de espaços físicos quanto de sonhos. É um filme que, mesmo consciente de suas limitações formais, encontra brilho na coragem de seus personagens e na força dos laços que os mantêm unidos. Depois do desabamento, resta sempre a possibilidade de reerguer algo novo.

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Felipe Fornari

OUTRAS CRÍTICAS

Vidente por Acidente

Vidente por Acidente

Mais uma comédia nacional chega aos cinemas brasileiros, agora trazendo Otaviano Costa estrelando seu primeiro protagonista nas telonas, narrando a história de Ulisses, um arquiteto no auge de seus 45 anos, com uma carreira consolidada no ramo, e uma vida...

Uma Família de Dois

Uma Família de Dois

Parece que Uma Família de Dois, refilmagem do espanhol Não Aceitamos Devoluções, de 2013, foi feita apenas para aproveitar do carisma de Omar Sy (Os Intocáveis, Chocolate e Samba) e ganhar mais algum dinheiro com a mesma história. No filme, Samuel (Sy) nunca foi de...

Meu Verão na Provença

Os franceses parecem ter um dom nato de usar fórmulas batidas de forma natural e camuflada, fazendo que um cinema mais comercial traga bons questionamentos e elementos eficazes no roteiro. “Meu Verão na Provença” (Amis de Mistral, 2014), de Rose Bosch, é um drama...