A Morte de um Unicórnio

(2025) ‧ 1h47

23.07.2025

Ganância, sangue e chifres: A comédia sombria de “A Morte de um Unicórnio”

Logo na premissa, A Morte de um Unicórnio já deixa claro que não é um filme convencional: um unicórnio atropelado por acaso se torna a chave para explorar até onde a ganância humana pode ir. Dirigido por Alex Scharfman, o longa mistura horror, humor ácido e um comentário social escancarado sobre as elites corporativas. A ideia é ousada: transformar a criatura mítica, símbolo de pureza e inocência, no epicentro de uma sátira sobre o capitalismo selvagem — e, de quebra, adicionar um toque sangrento e grotesco que não poupa ninguém.

A narrativa acompanha Elliot (Paul Rudd), um advogado corporativo, e sua filha Ridley (Jenna Ortega), que se veem em uma situação absurda: após atropelarem um unicórnio em uma estrada isolada, decidem levar o corpo até um retiro de luxo, onde Elliot participará de um encontro com seu chefe, Dell Leopold (Richard E. Grant), magnata da indústria farmacêutica. A partir daí, o filme embarca em uma espiral de loucura: a descoberta de que carne, sangue e chifre da criatura possuem propriedades curativas abre espaço para um enredo movido pela cobiça, em que a ética é substituída pelo desejo incontrolável de poder.

O tom escolhido por Scharfman é híbrido, oscilando entre horror e sátira social, com momentos que lembram obras como Não Olhe Para Cima e O Menu, mas com um toque místico e surreal que mantém o espectador preso à tela. Ainda que o roteiro nem sempre avance com a força necessária, a atmosfera é construída com competência: as imagens que alternam a serenidade da natureza com a brutalidade das ações humanas ressaltam a contradição que move a trama. É um filme que se diverte sendo estranho — e quer que você se divirta com ele.

O elenco ajuda a manter o equilíbrio entre humor e tensão. Paul Rudd entrega um Elliot dividido entre proteger a filha e manter sua posição na empresa, mas é Jenna Ortega quem carrega a carga emocional da história. Ridley é uma adolescente de olhar crítico e fala afiada, responsável pelas melhores tiradas sobre hipocrisia corporativa e desigualdade social. Há um fio de melancolia na personagem, ligado a um trauma familiar, que poderia ter sido melhor desenvolvido, mas serve para humanizar o caos ao redor.

Entre os coadjuvantes, destaque para Will Poulter, que rouba a cena como um herdeiro mimado, arrogante e completamente desconectado da realidade — um retrato caricato, mas eficaz, do privilégio tóxico. Suas falas sarcásticas e atitudes insanas dão ao filme boa parte de sua energia cômica, reforçando a crítica à elite que, em nome do lucro, não hesita em ultrapassar qualquer limite moral. Richard E. Grant e Téa Leoni completam o núcleo dos Leopold com performances que equilibram falsos discursos altruístas e uma ganância quase caricatural.

Ainda que divertido e repleto de momentos memoráveis, A Morte de um Unicórnio não é isento de problemas. O roteiro, em alguns trechos, parece pisar em falso, sustentando-se mais pelo conceito do que pelo desenvolvimento dramático. A crítica social, embora pertinente, recorre a alvos fáceis, o que pode soar previsível para quem busca algo mais sofisticado. Por outro lado, Scharfman demonstra habilidade para criar cenas visualmente impactantes e inserir humor mesmo nos instantes mais grotescos, mantendo o tom irreverente que a história exige.

No saldo final, o longa cumpre sua proposta: é uma sátira divertida, sangrenta e cheia de personalidade, que faz rir enquanto cutuca feridas abertas do nosso tempo. Misturando fantasia e crítica social, A Morte de um Unicórnio transforma um acidente bizarro em um estudo ácido sobre a ganância, com um toque de magia e tragédia que deixa o espectador intrigado. Talvez não alcance o brilho das grandes obras do gênero, mas prova que, quando a humanidade encontra algo puro, a primeira reação é tentar explorá-lo até a última gota — ou, neste caso, até o último chifre.

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AUTOR

Felipe Fornari

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