Tron: Ares

(2025) ‧ 1h59

02.10.2025

"Tron: Ares": Código corrompido

Tron: Ares tenta reativar uma franquia que já foi símbolo de inovação e ousadia visual, mas acaba se perdendo em um labirinto de efeitos genéricos, ideias recicladas e personagens que parecem render menos processamento do que um programa de teste. O filme até parte de um conceito interessante — a interação entre o mundo digital e o real por meio de um ser de Inteligência Artificial consciente —, mas o resultado é tão sem energia que mais parece uma simulação com falhas de sistema.

Na trama, Ares (Jared Leto) é um programa avançado retirado do mundo virtual para cumprir uma missão no mundo humano. Lá, ele precisa lidar com os dilemas de sua própria programação, enquanto uma corporação de IA rival ameaça transformar a relação entre humanos e tecnologia em algo irreversível. O problema é que tudo isso é contado de forma burocrática, sem o senso de maravilhamento ou urgência que a história merecia.

Visualmente, o filme tenta reproduzir a estética de Tron: O Legado, mas sem a mesma elegância ou ritmo. O design das luzes e circuitos continua atraente, mas a fotografia é excessivamente fria e os efeitos, por vezes, lembram uma sequência de videogame mal renderizada. Há pouca imaginação nas cenas de ação, e até as tradicionais corridas de motos luminosas — marca registrada da franquia — surgem como mera obrigação, sem emoção ou inventividade.

O elenco, apesar de forte nos papéis, não consegue resgatar o filme do colapso. Jared Leto entrega uma performance artificialmente enigmática, como se ele próprio fosse um avatar com bug emocional. Greta Lee e Evan Peters tentam dar algum peso dramático ao conflito entre criação e controle, mas são engolidos por um roteiro que os trata como extensões do código-fonte. Nem mesmo a presença simbólica de Jeff Bridges — em uma aparição sem vida — consegue acionar a nostalgia que o público poderia sentir.

O roteiro tropeça ao tentar discutir dilemas existenciais da Inteligência Artificial, um tema cada vez mais atual, mas o faz de maneira rasa e previsível. As reflexões sobre consciência, livre-arbítrio e humanidade parecem copiadas de outros filmes, sem acrescentar uma perspectiva nova. Tudo é tão literal e mecânico que o espectador mal encontra tempo para se importar com o destino de Ares, muito menos com o impacto de suas ações no mundo real.

Em alguns momentos, Tron: Ares até acena para a mitologia que consagrou o original de 1982 — com seus debates sobre a fusão entre homem e máquina —, mas o faz sem a ousadia ou a curiosidade filosófica que definiram aquele primeiro passo no ciberespaço. O que resta é uma sucessão de cenas vazias, embaladas por uma trilha eletrônica relativamente boa e frases de efeito que soam geradas por um algoritmo de roteiros de ficção científica.

No fim, o novo capítulo da saga parece não compreender o próprio código que tenta executar. Tron: Ares é um colapso de ideias que se apagam antes mesmo de carregar completamente. Falta alma, falta propósito e, principalmente, falta a centelha de criatividade que fez do original um marco em 1982. Em vez de atualizar a franquia, o filme apenas prova que alguns sistemas — e conceitos — deveriam permanecer desconectados.

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AUTOR

Felipe Fornari

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