No documentário Sede de Rio, Marcelo Abreu Góis propõe um mergulho nas águas do São Francisco por meio da figura de Nitercílio Ferreira de Morais, o Seu Nir. Acompanhando sua travessia e sua devoção em direção a Bom Jesus da Lapa, o filme busca mais do que retratar uma trajetória pessoal: ele tenta dar corpo a uma experiência espiritual, íntima e ancestral. Ao mesmo tempo em que se aproxima de um registro etnográfico, a obra flerta com a poesia visual e com um certo realismo mágico.
O grande mérito está na atmosfera. A câmera se deixa levar pelo ritmo do rio, pela cadência do barco, pela serenidade dos gestos do protagonista. Não se trata de um documentário explicativo, cheio de entrevistas e dados; pelo contrário, Góis aposta na contemplação e no silêncio. Essa escolha dá ao espectador a liberdade de projetar suas próprias sensações e de perceber a dimensão simbólica da relação entre homem e natureza.

No entanto, essa mesma abordagem pode soar vaga em alguns momentos. O filme evita didatismos, mas em certos trechos também se esquiva de aprofundar informações que enriqueceriam o retrato de Seu Nir. A romaria que motiva sua jornada, por exemplo, aparece apenas como um fio solto, sem desenvolvimento claro. Para quem entra em contato com a obra sem saber de antemão a história do personagem, a narrativa pode soar dispersa demais.
Ainda assim, é impossível ignorar a força das imagens. O diretor, que também assina a fotografia, valoriza a luz natural e constrói planos que transformam o rio e seus arredores em personagens tão importantes quanto o próprio Seu Nir. Há beleza em cada reflexo da água, em cada composição que alterna a imensidão dos planos gerais com a intimidade dos detalhes do corpo ou dos objetos de cena. O som direto, combinado com momentos de trilha, completa essa sensação de imersão sensorial.
Outro aspecto interessante é a forma como o filme oscila entre encenação e registro. Em alguns trechos, Góis claramente molda a paisagem para extrair metáforas visuais, enquanto em outros apenas acompanha o fluxo da vida. Essa mistura pode causar estranhamento, mas também amplia a potência poética do longa, que não pretende ser um retrato factual, mas um ensaio sobre fé, memória e pertencimento.

É verdade que, ao abrir espaço para o mistério e a contemplação, Sede de Rio sacrifica parte de sua clareza narrativa. Há lacunas sobre o passado do protagonista, sobre os significados de alguns encontros e até sobre a própria dimensão espiritual de sua promessa. Essas ausências podem ser vistas tanto como fragilidades quanto como convites à imaginação — depende de quanto o espectador está disposto a navegar em águas mais abertas.
No fim, o filme se destaca como uma experiência sensorial que traduz em imagens a delicada simbiose entre um homem e o rio que moldou sua vida. Não é uma obra para quem busca respostas diretas, mas para quem aceita fluir ao sabor da correnteza, com pausas, silêncios e contemplações.




