Peaky Blinders – 1ª Temporada

(2013—2022) ‧ 1h

Navalhas afiadas e emoções distantes

Felipe Fornari

A primeira temporada de Peaky Blinders: Sangue, Apostas e Navalhas apresenta um drama de gângster elegante e visualmente marcante ambientado na Birmingham de 1919, logo após o trauma da Primeira Guerra Mundial. Criada por Steven Knight, a série aposta em atmosfera, figurinos impecáveis e uma fotografia sombria para construir um retrato estilizado do submundo britânico. O resultado é uma produção que chama atenção pela forma, embora nem sempre alcance a mesma força quando se trata de envolvimento emocional.

No centro da história está Thomas Shelby, interpretado por Cillian Murphy com frieza calculada e olhar sempre atento. Veterano de guerra e líder da gangue familiar que dá nome à série, Tommy tenta expandir os negócios ilegais da família enquanto lida com memórias traumáticas do conflito. Murphy sustenta o papel com presença, transmitindo a sensação de que cada movimento do personagem faz parte de um plano maior.

A trama ganha impulso quando um carregamento de armas do governo desaparece e acaba nas mãos da família Shelby. O incidente chama a atenção das autoridades e leva o governo britânico a enviar o implacável inspetor Campbell, vivido por Sam Neill, para recuperar o armamento e restaurar a ordem. A chegada do personagem estabelece um jogo de gato e rato que movimenta boa parte da temporada.

Nesse cenário turbulento, diferentes grupos disputam poder e influência, incluindo gangues rivais e organizações políticas que enxergam nas armas uma oportunidade estratégica. Tommy tenta transformar o problema em vantagem, manipulando cada lado da disputa para fortalecer a posição dos Peaky Blinders. A série encontra bons momentos quando explora essas intrigas e o clima de tensão constante nas ruas industriais da cidade.

Apesar do potencial dramático, porém, a série por vezes parece manter o público a certa distância de seus personagens. O restante da família Shelby, embora importante para a história, nem sempre recebe desenvolvimento suficiente para gerar maior conexão emocional. Mesmo Tommy, apesar do carisma de Murphy, surge muitas vezes como uma figura mais simbólica do que verdadeiramente íntima.

A comparação com produções do gênero acaba sendo inevitável. Em alguns momentos, Peaky Blinders lembra a ambição histórica de Boardwalk Empire: O Império do Contrabando ou a brutalidade de Gangues de Nova York. Ao mesmo tempo, seu uso frequente de câmera lenta, trilha sonora moderna e enquadramentos calculados reforça a impressão de que a estética, por vezes, se sobrepõe ao desenvolvimento dramático.

Ainda assim, a primeira temporada constrói um universo intrigante e visualmente sedutor, capaz de prender a atenção mesmo quando a narrativa parece emocionalmente distante. Entre disputas de poder, memórias de guerra e alianças perigosas, Peaky Blinders estabelece as bases de uma saga criminal ambiciosa que, apesar de algumas limitações iniciais, demonstra potencial para crescer e se aprofundar nas temporadas seguintes.

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