Caso 137 é um verdadeiro thriller, um misto de filme policial, drama e suspense do diretor alemão Dominik Moll, com roteiro de Gilles Marchand e do próprio diretor. A obra retrata as relações contraditórias, espúrias e dissimuladas das instituições policiais francesas, deixando um gosto amargo de injustiça e um profundo incômodo. A produção foi selecionada para a competição oficial pela Palma de Ouro no último Festival de Cannes (2025).
O ano era 2018 na França, quando uma série de manifestações populares eclodiu em todo o país, lideradas pelos chamados “coletes amarelos”, cuja denominação faz referência ao colete de sinalização de trânsito obrigatório. As primeiras reivindicações estavam relacionadas ao aumento dos impostos sobre os combustíveis.

Porém, à medida que o movimento ganhou força e projeção nacional, não apenas nos centros urbanos, mas também nas zonas rurais, as pautas passaram a versar sobre justiça social, desigualdade e ampliação dos espaços de participação coletiva, tensionando o governo de Emmanuel Macron. De forma muito sutil, a produção demarca as fronteiras entre civis e policiais, sugerindo que estes últimos não se reconhecem como trabalhadores explorados, mas, em razão de um profundo processo de alienação, passam a enxergar a população como um inimigo a ser combatido com violência e crueldade.
A protagonista é a policial Stéphanie, em uma interpretação elogiada da atriz Léa Drucker, destacada pela eficiência e contenção emocional. Na trama, ela atua como investigadora interna, responsável por apurar as ações cometidas por seus próprios colegas, ou seja, é a “polícia da polícia”. No entanto, o caso que passa a investigar faz com que seu envolvimento se aprofunde, levando-a a questionar a condução das investigações de seu departamento e valores ainda mais profundos, como a ética nas relações policiais e a fragilidade da preservação da idoneidade e da dignidade dos cidadãos.
No filme, um jovem é gravemente ferido por uma granada de dispersão durante os protestos dos Coletes Amarelos em Paris. Ao longo das investigações, apresentadas de forma meticulosa e detalhada pelo roteiro, são revelados aspectos do chamado “coleguismo”, ambiguidades, favorecimentos e fragilidades no controle interno das forças de segurança. Não se trata de um caso verídico, mas, de certa forma, expressa muitas situações semelhantes de violência policial que ocorreram durante os protestos daquele ano.

Um dos aspectos mais interessantes do filme reside na coleta de depoimentos, tanto de familiares e amigos da vítima quanto dos policiais, pois é a partir deles que a trama é construída, como resultado de uma investigação complexa liderada pela protagonista. Movida pela busca do esclarecimento dos fatos, ela atua dentro da institucionalidade, sem burlar regras ou limites. Entretanto, a dinâmica dos personagens passa a envolver aspectos da esfera pública, como a organização e a burocracia policial, bem como das relações privadas, que acabam se confundindo, especialmente entre as famílias da policial e da vítima.
Ao final, constatamos que a fúria e a rebeldia dos “coletes amarelos” se tornam necessárias em um mundo em que o poder de polícia do Estado pouco se importa com aqueles historicamente marginalizados em seus direitos, sejam eles pobres, negros ou árabes.







