A Garota no Trem

27.10.2016 │ 08:00

27.10.2016 │ 08:00

O thriller A Garota no Trem, da escritora inglesa Paula Hawkins é um best-seller bem sucedido que caminha em uma direção muito próxima do estilo da americana Gillian Flynn, conhecida pelo ótimo Garota Exemplar, que, em 2014, ganhou adaptação cinematográfica nas mãos de David Fincher. Entre críticas e elogios é inevitável que as adaptações para o cinema passem pela peneira da escolha, do que vai e do que fica da linguagem escrita, e muitas vezes optem por caminhos que mudam o foco da narrativa original. Em A Garota no Trem, dirigido por Tate Taylor e com roteiro de Erin Cressida Wilson, o filme funciona pouco a serviço dos discursos implícitos no texto e acaba caindo em uma série de clichês do velho conhecido gênero de suspense e investigação hollywoodiano.
Transportado para solo americano – originalmente escrito e ambientado no subúrbio de uma Inglaterra fria e pouco simpática – A Garota no Trem apresenta Rachel (Emily Blunt), uma apática mulher na casa dos trinta anos que acredita já ter perdido tudo na vida. Alcoólatra e apegada a mentiras, ela entra cedo no trem todos os dias para ir a um emprego que não tem mais, observar pela janela e invejar vidas que finge conhecer e assim tornar a sua o mais miserável possível. O longa é apresentado por três perspectivas diferentes, Rachel, Megan (Haley Bennett) e Anna (Rebecca Ferguson). Megan é o ideal de esposa inventado por Rachel, e Anna é a atual esposa do ex-marido Tom, quem ela acredita ter perdido por pura negligência no casamento. Mas a linha contínua de autodestruição por parte de Rachel passa a ser interrompida quando Megan desaparece e essa passageira vê algo perturbador e diferente.
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Se no livro Paula Hawkins constrói mulheres com perfis interessantes, aparentemente sonhadoras suburbanas, porém com uma carga crítica e realista, aqui Taylor não se aprofunda nas personagens. Pelo contrário, A Garota no Trem está à serviço de um espectador que procura belos corpos, sorrisos falsos e interpretações rasas. As mulheres aqui estão em disputa o tempo inteiro, seja pela atenção dos homens ou entre si. Não que no livro esse ponto não seja abordado – faz parte da construção da narrativa – mas no filme a empatia não fica nem subentendida. Tudo parece uma interpretação apressada do enredo original e sem o mínimo de interesse em dialogar com os intertextos. Uma personagem que busca a sedução como forma de lidar com seus traumas, no longa se torna apenas uma bela mulher nos padrões cinematográficos, trabalhando para uma câmera voyeur e fazendo sexo quase todas as vezes que essa se aproxima. Outra, que abandonou sua carreira para ser dona de casa e mãe, como a sociedade previa, e passa boa parte de sua narrativa em discurso sobre estar ali ou ser uma profissional, se torna apenas a ex-amante ciumenta de um marido passivo-agressivo.
Aliás, todos os homens na adaptação de A Garota no Trem são mostrados de forma superficial (porém, galantes com dentes branquíssimos e abdômen em gomos), mesmo quando são os verdadeiros vilões. Um enredo sobre violência de gênero e feminicídio fica parecendo apenas mais um dos casos trágicos que acontecem em subúrbios de primeiro mundo e são noticiados brevemente na TV. Paula Hawkins até tem uma preocupação em ser um livro acessível – tanto que vendeu mais de 20 milhões de cópias – mas o filme apenas se apoia no que há de superficial e aposta mais uma vez na falta de criatividade que anda se esgueirando nas produções adaptadas de livros nos últimos tempos.
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É uma pena ver Emily Blunt ser desperdiçada como protagonista, a personagem central de A Garota no Trem tem pouco diálogo com a Rachel do livro. Como mencionado, o longa se preocupa demais em ter atrizes e atores com uma beleza vendável e deturpa vários pontos interessantes descritos no livro, infelizmente quase nenhum se destaca de fato. O longa se esforça entre trilha sonora, alguns planos compondo o trem e o subúrbio, e uma fotografia melancólica, bem colada na estética escolhida por Fincher em Garota Exemplar.
A Garota no Trem poderia ter se relacionado com uma série de abordagens pertinentes e ainda assim ser um longa de suspense instigante. Quer algo mais assustador – e mesmo real – que não poder confiar nas pessoas mais próximas de você? Pior, descobrir que essas pessoas interpretavam papéis o tempo todo até se revelarem? Parece que Tate Taylor e Erin Cressida Wilson não sentiram empatia no caso das três mulheres que foram subjugadas por homens que queriam ser pais e chefes de família a todo custo. O que parece é que o livro é apenas uma boa história de bilheteria e nada mais. Uma pena que nem isso, pois o filme passa quase duas horas apressado por uma história de alcoolismo, maternidade, violência, omissão e não deixa rastros de empatia no espectador. Hollywood precisa ler com mais atenção.
Nota:

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