Em A Incrível Eleanor, Scarlett Johansson estreia na direção com uma sensibilidade surpreendente, conduzindo uma história que, em mãos menos delicadas, poderia facilmente se perder no desconforto moral que propõe. O filme acompanha Eleanor (June Squibb, em desempenho magnífico), uma mulher de 94 anos que, após perder sua melhor amiga e companheira de décadas, encontra uma forma improvável — e eticamente questionável — de lidar com o luto: tomar para si as memórias da outra.
A narrativa parte de um lugar íntimo e despretensioso, mas logo se torna um estudo complexo sobre a solidão, a culpa e o poder das histórias que escolhemos contar. Eleanor é ao mesmo tempo encantadora e desconcertante: sua mentira nasce de um desejo sincero de manter viva a memória de Bessie, mas também revela a necessidade desesperada de continuar relevante, de ser ouvida, de não desaparecer com o tempo. Johansson filma essa contradição com ternura e sem pré-julgamentos.

June Squibb é o coração do filme. Sua performance equilibra humor, vulnerabilidade e uma obstinação quase infantil que nos impede de condená-la. A atriz, que já havia brilhado em Nebraska, entrega aqui um retrato comovente da velhice, em que o limite entre empatia e egoísmo se torna cada vez mais nebuloso. É um daqueles papéis que só uma intérprete madura e generosa poderia tornar crível.
O roteiro de Tory Kamen, ainda que tropece em algumas simplificações, propõe discussões incômodas sobre verdade e memória. Há um desconforto latente na premissa — afinal, Eleanor se apropria de uma história de dor que não é sua —, mas Johansson o encara de frente, transformando-o em reflexão sobre as formas como o trauma e o afeto se transmitem. O filme não desculpa sua protagonista; apenas a entende.
A relação entre Eleanor e a jovem jornalista Nina (Erin Kellyman) funciona como um espelho entre gerações. Enquanto uma busca preservar o passado, a outra tenta compreendê-lo. O vínculo entre elas é o que dá ao filme sua alma, mesmo quando a mentira ameaça destruir tudo. Há algo de Ensina-me a Viver nesse encontro improvável, nessa troca de vitalidade e dor entre juventude e velhice, verdade e invenção.

Ainda que o filme se apoie excessivamente na performance de Squibb, Johansson demonstra uma direção segura, preferindo a contenção à catarse. O retrato que faz de Nova York — íntimo, cotidiano, quase banal — reforça o contraste entre a vida comum e os grandes dramas morais que atravessam os personagens. É uma estreia promissora, consciente de suas próprias limitações, mas guiada por um olhar genuíno.
A Incrível Eleanor é, no fim, sobre como as histórias que contamos moldam quem somos — mesmo quando nascem de enganos. Johansson cria um filme delicado e provocante, e Squibb o transforma em algo maior: uma reflexão emocionada sobre perda, culpa e a necessidade humana de deixar um rastro. A mentira de Eleanor pode ser moralmente indefensável, mas sua humanidade, esta sim, é inegável.




