Temas densos, pela ótica e subjetividade infantil, não faltam neste filme. A diretora e roteirista Rafaela Camelo não economiza em tocar em assuntos sensíveis como a morte, o luto, o cuidado, o envelhecimento, a maternidade solo, a identidade de gênero. Filme dirigido e roteirizado por uma mulher e protagonizado por mulheres de diferentes gerações. Um núcleo feminino que reafirma a autonomia, o cuidado e a resistência. Um filme político, que traz as dores e as delicadezas do corpo e da alma. O olhar lúdico e espontâneo das crianças revela o que realmente importa: a arte do encontro, da cultura, dos vínculos, da descoberta do mundo. O cinema nacional, mais uma vez, mostrando por meio de uma narrativa aparentemente simples, sua força e potencial.

A trama inicia a partir do encontro entre duas meninas, Glória (Laura Brandão) e Sofia (Serena), que se conhecem durante as férias em um hospital. Glória acompanha a mãe, Antonia (Larissa Mauro), uma enfermeira sobrecarregada e mãe solo. Sofia e sua mãe, Simone (Camila Márdila) visitam a bisavó Francisca (Aline Marta Maia), uma benzedeira internada após um acidente doméstico, que sofre de Alzheimer, e oscila entre lapsos de memória e momentos de invocação ritualística. É nesse ambiente asséptico da rotina hospitalar, onde o limite entre vida e morte se faz presente a todo momento, que floresce a amizade entre Glória e Sofia. Antônia e Simone vivem os desafios da maternidade solo em contextos distintos, mas semelhantes na exaustão, na sobrecarga e na ausência de redes de apoio. A cumplicidade entre as mães, somada à amizade das filhas, revela a sororidade entre mulheres, de afeto e resistência diante das vulnerabilidades que atravessam seus cotidianos.
As mães decidem passar alguns dias no sítio da bisavó, tanto para afastar as meninas do ambiente hospitalar quanto para cuidar de Francisca. Sair do espaço clínico e asséptico significa adentrar um território de memória, espiritualidade, rituais e ancestralidade. Ali, Glória e Sofia vivem suas férias longe das paredes brancas do hospital e se aproximam da rotina da “bisa”, agora fragilizada, mas ainda profundamente ligada aos saberes da terra. Rituais de benzimento, rezas, objetos sagrados e gestos cotidianos revelam um Brasil profundo, onde sincretismo religioso e cultura popular se entrelaçam. As meninas exploram a chácara, brincam ao ar livre, observam animais, plantas e objetos carregados de histórias. Elementos do fantástico e do onírico surgem com naturalidade, presenças, sonhos, visões, criando uma ruralidade simbólica que contrasta com a racionalidade urbana do hospital.

Rafaela Camelo realiza um cinema que respeita a subjetividade infância: a câmera desce à altura das meninas, acompanha seus passos pelos corredores, observa seus gestos de curiosidade, a intensidade com que correm, experimentam e descobrem o mundo, mesmo em meio a circunstâncias adversas. É um modo de mostrar como a infância lida com os ciclos da existência sem tabus, com liberdade e imaginação. A infância, aqui, ensina a olhar novamente para aquilo que permanece invisível aos olhos. O filme constrói uma reflexão profunda sobre humanidade, fragilidade e vínculos, sobre a inevitabilidade da morte e a beleza de estar vivo. Ao apostar no olhar infantil, a obra revela que a vida é feita de encontros e de afetos que escapam à lógica racional, além de enfrentar debates urgentes, como gênero, maternidade, envelhecimento e espiritualidade, tecendo-os com respeito e uma sensibilidade rara.




