Filme assistido durante o 15º Olhar de Cinema.
É curioso pensar que Miguel Burnier foi um engenheiro, responsável no final do século XIX pela expansão da malha ferroviária no interior de Minas Gerais. É curioso porque como engenheiro o seu nome representava expansão, oportunidades e qualidade de vida. Porém, a pergunta é sempre para quem? Um pouco mais de um século depois, um distrito que era ponto de chegada e saída, com construções coloniais e igrejas barrocas foi se tornando um lugar fantasma, com direito à desfiguração e assombrações habitando o capitalismo tardio. O lugar foi rifado ao longo do tempo, e hoje é minerado pela empresa gaúcha Gerdau que, em um pouco mais de vinte anos de atuação no lugar, reduziu a cidade em 80 habitantes, sem contar os inúmeros desgastes naturais.

Porém, A Noite e os Dias de Miguel Burnier, filme de João Dumans, não pretende ser um documentário sobre as ruínas desse distrito de Ouro Preto. É muito mais sobre a união dos fantasmas que resistem em se manter firmes nesta terra devastada. Dadá, Zezé, Rita e Setenta são alguns dos personagens que Dumans e sua pequena equipe filmaram durante cerca de três anos. Ao conhecer essas visagens que habitam as ruínas de Miguel Burnier, nos lembramos que nem tudo pode ser destruído pelo capitalismo que ainda é a mesma carroça brutal da época colonial. Apesar das cenas devastadoras, filmadas de pontos estratégicos da cidade abandonada, os personagens em tela dançam, bebem, reclamam, cantam, se indignam, plantam e insistem em continuar vivos. É claro que isso não se dá de maneira uniforme, em algumas cenas arriscamos nos sentir desconfortáveis diante de Rita que chora e fala da dificuldade de arrumar um trabalho e de como veem de fora a relação do pobre com o álcool etc. Mas, logo em seguida, essa câmera que já está dentro dessa casa como uma amiga, vemos a mesma personagem fazendo um lipsync da Pablo Vittar, nos tirando risos de alegria.

Dumans conta, na coletiva de imprensa, que filmou muitas personagens ao longo dos anos em Miguel Burnier, mas que coube a Affonso Uchôa (com quem dirigiu o emblemático Arábia) a decisão do que escolher para montar. E foi nesse grupo de amigos que o montador encontrou o fio narrativo para contar a noite – com as luzes diretas e fortes da estrutura da empresa – e, também, os dias, que é quando encontramos eles vivendo a vida que é possível, um dia por vez. Em uma das cenas, Dadá caminha pelo cemitério da cidade (que normalmente fica na parte mais alta das cidades) e vai lendo o nome das pessoas, quando nasceram e morreram. Às vezes ele só anda pelo lugar, outras senta em cima dos túmulos nitidamente abandonados. Dadá oferece algumas das reflexões mais brutalmente honestas do filme, sobre abandono, viver e morrer em um lugar onde a maioria das pessoas nem sabe onde fica. São nesses momentos que agradecemos que em A Noite e os Dias de Miguel Burnier, Dumans e equipe tenham insistido em manter a vida e amizade diante do cinza do aço e do som de máquinas trabalhando. Afinal, é isso que fica, as imagens do que foi, diante das ruínas vazias do progresso.







