A Odisseia de Enéias, filme italiano de 2023, selecionado para a competição oficial do Festival de Veneza, produzido pelo celebrado cineasta Luca Guadagnino (Me Chame Pelo Seu Nome), estrelado, dirigido e roteirizado por Pietro Castellitto, uma produção do tipo quase-familiar, pois um dos atores escalados, é o próprio pai de Pietro, o ator italiano, Sergio Castellitto, que coincidentemente faz seu próprio pai.
No elenco destacam-se também as atuações de Benedetta Porcaroli, Giorgio Quarzo Guarascio, Chiara Noschese, Giorgio Montanini, Adamo Dionisi e Matteo Branciamore.
No longa, acompanhamos a história da amizade entre Enea (Pietro Castellitto) e Valentino (Giorgio Quarzo Guarascio), que se conhecem desde a adolescência, fazendo das suas vidas um delírio, uma imersão de amor e confiança.

O filme se destaca pelo seu ritmo e pelas imagens vibrantes, parece querer demonstrar a urgência daqueles jovens em viver todas aquelas sensações, mesmo que de forma rasa e superficial. O estilo particular do diretor é materializado através das imagens, sons e montagem aceleradas, uma forma muito particular de ver o mundo e a construção daquelas relações, nos levando a uma experiência cinematográfica sensorial.
Segundo a mitologia grega, Enéias, era um nobre troiano, filho de Anquises e da deusa Afrodite. Sua linhagem familiar o tornava privilegiado, era detentor de sangue mortal e divino. No filme, o pai de Enea, afirma que seu filho nasceu em uma condição social favorecida, pois a sua família é rica, mas transformou-se em uma figura prepotente e vaidosa, que valoriza um cotidiano artificial, embalado por festas com membros da classe alta italiana, sem vínculos mais profundos, nem com sua família, tão pouco com Eva (Benedetta Porcaroli), sua namorada.
A única exceção se dá na relação com Valentino, que compartilham vivências extremas, desde crimes, tráfico de drogas, violência e festas. É desse convívio intenso, que sobressaem sentimentos contraditórios que vão desde a solidariedade, reciprocidade, empatia, mas também banalidade, fugacidade e futilidade.
Assim como na mitologia, Enéias era privilegiado, pelo fato de ser mortal e imortal e no filme, Enea, o protagonista é retratado como um personagem que descende de uma família rica, arrogante, quase desprezível, mas acima de tudo, um privilegiado, pois ao tornar-se um traficante de drogas, não dá valor para quase nada, vivendo a superficialidade das festas com os membros da elite italiana.
É importante salientar que a primeira tomada do filme, nos induz ao erro, pois passa a impressão, de que através do diálogo, entre dois personagens, em um plano fechado, somente com os rostos aparecendo, nos faz crer que o roteiro será construído com uma profundidade existencial.

No entanto, a narrativa se dilui, perde a centralidade e fica à deriva do descontrole emocional dos personagens, como se fossem pessoas quebradas por dentro, desligadas da realidade. Porém, o contexto social contraditório e dialético é resgatado, de certa forma, por um dos personagens, um escritor que resgata a trajetória de um apenado, lembrando que a vida em sociedade é cruel, mesquinha, mas que a justiça e a luz podem encontrar vitória, pois nenhuma prisão deve privar um preso de ter esperança de escapar.
Infelizmente, essa impressão dura o tempo da cena de abertura, com uma trilha sonora estridente e um protagonista que almeja apenas poder e riqueza, alheio a tudo e todos, prova disso é que passa a maior parte do tempo, com fones de ouvido, sem se importar com o que os outros pensam e falam.
A Odisseia de Enéias, passa pela vida, como o destino que o seu pai, de certa forma o sentenciou, um sujeito vazio, sem propósitos e objetivos, vivendo uma vida de mera aparência e com um final que traduz sua própria invisibilidade. O filme possui objetivos altos, almeja propósitos inatingíveis, e acaba colhendo como resultado, uma experiência vazia e com pouca emoção, mas em consonância com o vazio existencial do seu protagonista.







