Levados pelas Marés

(2024) ‧ 1h51

11.06.2025

"Levados pelas Marés": Ruínas que falam

Em Levados pelas Marés, o cineasta chinês Jia Zhangke mais uma vez mergulha nas águas profundas da memória coletiva e das transformações sociais da China contemporânea. Conhecido por seu olhar atento às tensões entre o passado e o presente, Zhangke entrega aqui um filme que é, ao mesmo tempo, um retrato melancólico de um país em constante mutação e uma ode à fluidez da vida humana. O título, por si só, já sugere a inevitabilidade das mudanças, somos todos levados pelas marés do tempo, da história, das escolhas e do acaso.

A história acompanha um cineasta chinês que retorna à sua cidade natal depois de muitos anos, movido por um projeto de documentário sobre a transformação da região. Ao reencontrar antigos conhecidos e revisitar espaços que marcaram sua juventude, ele se vê imerso num processo não apenas de registro histórico, mas de redescoberta pessoal. A cidade, agora atravessada por obras, demolições e uma arquitetura impessoal, se torna um espelho do próprio personagem, cujas memórias parecem resistir ao tempo, mas não sem rachaduras.

O filme constrói sua trama não por grandes eventos, mas por silêncios, olhares e gestos contidos. O diretor transita entre o documental e o ficcional, oferecendo um cinema de observação, de escuta e de grande sensibilidade. Com depoimentos e materiais reais, como entrevistas com moradores reais ou trechos de arquivos antigos. Essa costura entre ficção e realidade é uma das marcas registradas de Zhangke e ganha aqui um tom mais pessoal, quase autobiográfico. Em entrevistas, o diretor já revelou que o roteiro foi construído a partir de lembranças reais de sua infância em Fenyang. Grande parte das locações utilizadas são reais, e muitas cenas foram captadas em cidades que estão sendo gradualmente engolidas pela modernização acelerada da China.

A fotografia de Yu Lik-wai é composta por longos planos estáticos, enfatizando o vazio e os detalhes: fachadas descascadas, paisagens cinzentas, personagens perdidos entre prédios e neblina. Os enquadramentos estáticos capturam tanto a arquitetura quanto a ausência. O tempo parece dilatado, e isso não é por acaso. Zhangke quer que sintamos o peso do passado, que percebamos o quanto o presente é moldado por ele, mesmo quando tenta apagá-lo. A trilha sonora é minimalista e melancólica, pontuando com precisão momentos de introspecção e delicadeza.

Levados pelas Marés não é um filme de ritmo acelerado, tampouco oferece soluções fáceis ou finais felizes. É um convite à introspecção, ao confronto com o tempo, com a memória e com a própria efemeridade das coisas. Zhangke nos lembra que, mesmo diante da destruição, existe poesia, nas ruínas, nos rostos envelhecidos, nos sons que ecoam das fábricas caladas. Um cinema de resistência e de beleza frágil, mas necessária.

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AUTOR

Nicole Correia

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