Agonia de Amor

(1947) ‧ 2h05

Quando o desejo compromete a verdade

Felipe Fornari

Agonia de Amor troca perseguições e conspirações por um tribunal, mas Alfred Hitchcock encontra novamente um território fértil para investigar culpa, desejo e aparências. Anthony Keane é um respeitado advogado encarregado da defesa de Anna Paradine, acusada de assassinar o marido rico e cego. O que deveria permanecer como uma relação estritamente profissional rapidamente se transforma em fascínio. Keane passa a enxergar sua cliente não a partir das evidências, mas da imagem que construiu dela, permitindo que a atração determine aquilo em que deseja acreditar. Mais do que descobrir se Anna é culpada, o filme acompanha um homem convencendo a si mesmo de que sua versão da verdade precisa estar correta.

Gregory Peck trabalha novamente com Hitchcock depois de Quando Fala o Coração e encontra em Keane um personagem cuja desintegração acontece lentamente. Seguro de sua inteligência e experiência, o advogado acredita controlar tanto o julgamento quanto os próprios sentimentos, mas sua obsessão progressivamente compromete ambos. Alida Valli interpreta Anna com uma frieza deliberada que preserva certo mistério, embora a relação entre os dois nunca alcance a intensidade necessária para justificar plenamente a paixão de Keane. Existe uma distância entre os atores que enfraquece justamente o elemento que deveria sustentar emocionalmente boa parte da história.

Mais interessante é a maneira como essa obsessão atinge Gay, esposa de Keane. Ann Todd interpreta uma mulher perfeitamente consciente da atração do marido por sua cliente, mas que reage menos com ciúme explosivo do que com uma dolorosa lucidez. O casamento aparentemente estável passa a revelar fragilidades que o caso apenas trouxe à superfície. Hitchcock encontra aqui uma de suas ideias recorrentes: instituições respeitáveis podem esconder relações profundamente desequilibradas. Essa percepção também aparece no casamento do juiz Horfield, vivido com desagradável autoridade por Charles Laughton, com a sensível Lady Sophie, personagem que Ethel Barrymore transforma em uma presença discreta e profundamente melancólica.

O julgamento ocupa grande parte do filme, e Hitchcock tenta superar a natureza estática desse tipo de narrativa através de movimentos elaborados de câmera e planos prolongados. O tribunal deixa de ser simplesmente um palco para diálogos e passa a funcionar como espaço de observação. Um dos momentos mais expressivos acompanha Anna enquanto Andre Latour entra no recinto atrás dela: sem precisar vê-lo diretamente, sua reação revela uma intimidade que Keane ainda se recusa a compreender. A câmera parece saber mais do que o advogado e transforma a movimentação dentro do tribunal em informação dramática.

Louis Jourdan acrescenta ao filme uma tensão que se torna decisiva quando Latour passa a ocupar o centro da estratégia de defesa. Keane precisa acreditar que aquele homem é responsável pelo assassinato porque essa hipótese preserva simultaneamente a inocência de Anna e a fantasia que criou em torno dela. Ao pressioná-lo diante do tribunal, deixa de agir exclusivamente como advogado e começa a defender seus próprios desejos. É uma inversão bastante hitchcockiana: o profissional encarregado de revelar a verdade torna-se incapaz de percebê-la porque está emocionalmente comprometido com uma mentira conveniente. Quando as consequências surgem, sua vitória jurídica deixa de importar diante do estrago humano provocado por sua obsessão.

Apesar dessas ideias, o filme frequentemente sofre com um excesso de solenidade. Os diálogos são longos, o ritmo irregular e algumas relações permanecem mais interessantes como conceitos do que como experiências emocionais. Hitchcock experimenta com planos extensos e movimentos complexos que seriam levados muito mais longe em Festim Diabólico, mas aqui a técnica nem sempre consegue libertar a narrativa de sua origem literária e teatral. Há momentos de enorme elegância visual e boas observações sobre casamento, poder e justiça, porém eles convivem com uma história que demora excessivamente para alcançar revelações que o espectador pode antecipar.

Agonia de Amor encerra de maneira relativamente modesta a parceria entre Hitchcock e David O. Selznick iniciada com Rebecca, a Mulher Inesquecível. Está distante das realizações mais inspiradas desse período, especialmente da precisão de A Sombra de uma Dúvida ou da intensidade emocional de Interlúdio, mas permanece interessante como estudo de um homem destruído menos pelo resultado de um julgamento do que pela própria incapacidade de separar desejo e realidade. O verdadeiro caso investigado por Hitchcock não é apenas o assassinato de Paradine, mas a facilidade com que alguém inteligente pode abandonar qualquer objetividade quando se apaixona pela versão da verdade que mais gostaria de encontrar.

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