Em Interlúdio, Alfred Hitchcock utiliza uma operação de espionagem como superfície para contar uma história muito mais íntima sobre confiança, culpa e manipulação emocional. Alicia Huberman carrega o estigma deixado pelo pai, condenado por colaborar com os nazistas, e responde à humilhação pública refugiando-se em festas, álcool e relacionamentos passageiros. É nesse momento que conhece Devlin, agente americano encarregado de recrutá-la para uma missão no Rio de Janeiro. Alicia deverá se aproximar de antigos conhecidos do pai para descobrir o que um grupo de nazistas está planejando no Brasil. O que deveria ser uma relação estritamente profissional, porém, rapidamente se transforma em um envolvimento amoroso que tornará a missão muito mais cruel para ambos.
Ingrid Bergman oferece uma das grandes interpretações da filmografia de Hitchcock ao transformar Alicia em uma mulher que deseja desesperadamente deixar de ser definida pelos erros paternos. Sua participação na missão representa uma possibilidade de redenção, mas os homens ao redor continuam julgando-a pelo passado. Cary Grant, trabalhando novamente com o diretor depois de Suspeita, surge em registro particularmente sombrio. Devlin ama Alicia, porém é incapaz de superar completamente seus preconceitos e ciúmes. Quando recebe a notícia de que ela deverá seduzir Alexander Sebastian, sua reação não é protegê-la, mas esconder a própria vulnerabilidade atrás da frieza profissional. O agente que deveria conduzir a missão torna-se, emocionalmente, mais um de seus algozes.

Essa contradição faz com que o triângulo entre Alicia, Devlin e Sebastian seja muito mais interessante do que a própria conspiração nazista. Claude Rains constrói um antagonista surpreendentemente humano, um homem perigoso por suas associações políticas, mas genuinamente apaixonado pela mulher que o engana. Sebastian oferece a Alicia aquilo que Devlin se recusa a admitir que deseja oferecer: casamento e uma declaração explícita de amor. Hitchcock evita qualquer divisão confortável entre herói e vilão. Devlin pertence ao lado moralmente correto da guerra, mas frequentemente trata Alicia com crueldade; Sebastian pertence ao lado criminoso, mas demonstra sentimentos verdadeiros por ela. O resultado é um conflito em que as relações pessoais são muito mais ambíguas do que as posições políticas.
O suspense nasce justamente quando esses sentimentos passam a interferir na operação. Durante uma recepção na mansão de Sebastian, Hitchcock realiza um dos movimentos de câmera mais extraordinários de sua carreira: começa mostrando o salão de uma posição elevada e gradualmente se aproxima até chegar à pequena chave escondida na mão de Alicia. Todo o perigo daquela casa é condensado em um objeto. A investigação da adega, conduzida por Alicia e Devlin enquanto Sebastian se aproxima, transforma garrafas e fechaduras em fontes de tensão. O urânio escondido pelos conspiradores funciona como o necessário motivo da espionagem, mas Hitchcock está claramente mais interessado em saber se aqueles personagens serão capazes de confiar uns nos outros.
A mansão também é dominada pela presença da mãe de Sebastian, interpretada por Leopoldine Konstantin com uma frieza extraordinária. Seu olhar sobre Alicia mistura desconfiança, ciúme e controle, antecipando outras figuras maternas opressivas do cinema de Hitchcock. Quando mãe e filho finalmente descobrem a verdade, não podem simplesmente denunciar a espiã: admitir que Sebastian foi enganado significaria revelar sua incompetência aos próprios conspiradores. A solução é assustadoramente doméstica. Alicia começa a ser envenenada lentamente através do café, e aquilo que deveria representar hospitalidade torna-se instrumento de assassinato. Hitchcock transforma novamente um objeto cotidiano em ameaça, fazendo uma simples xícara adquirir um peso aterrorizante.

É nesse processo que Interlúdio revela plenamente que sua questão central nunca foi descobrir os planos dos nazistas. Alicia está morrendo diante de Devlin, e ele demora a perceber porque sua desconfiança o levou a interpretar o comportamento dela da pior maneira possível. O resgate final funciona, portanto, como reconhecimento e reparação. Ao entrar no quarto e encontrar Alicia debilitada, Devlin finalmente abandona a postura defensiva e admite aquilo que deveria ter dito muito antes. A descida pela escadaria da mansão é simultaneamente uma fuga física e uma extraordinária reversão de poder: Sebastian precisa colaborar com o homem que leva sua esposa embora porque qualquer tentativa de impedi-los poderá revelar aos companheiros que foi traído.
Interlúdio é uma das obras-primas de Hitchcock porque espionagem, romance e suspense jamais parecem elementos independentes. Cada segredo político possui uma consequência afetiva, enquanto cada gesto amoroso pode comprometer uma missão. A fotografia em preto e branco, os movimentos de câmera, os objetos transformados em ameaças e as atuações extraordinárias de Bergman, Grant e Rains produzem um filme de impressionante precisão. E Hitchcock ainda recusa encerrar a história simplesmente com os amantes reunidos: sua última atenção pertence a Sebastian, obrigado a retornar lentamente para uma casa onde seus aliados já compreendem sua traição. O amor pode salvar Alicia e Devlin, mas, em Interlúdio, toda escolha deixa alguém do outro lado da porta.








