Amelia Toledo: Lembrar de Não Esquecer

(2025) ‧ 1h22

A arte como exercício permanente de descoberta

Felipe Fornari

Há algo de profundamente coerente em um documentário sobre Amelia Toledo se interessar menos por estabelecer uma definição para a artista do que por acompanhar sua permanente inquietação. Amelia Toledo: Lembrar de Não Esquecer, dirigido por Helio Goldsztejn, percorre a trajetória de uma das criadoras mais singulares da arte brasileira sem tentar aprisioná-la em uma única linguagem. Pintura, desenho, escultura, joalheria e educação aparecem como extensões de uma mesma curiosidade, sempre disposta a experimentar novos materiais e possibilidades.

O grande mérito do filme está justamente em compreender que a obra de Amelia não pode ser separada da maneira como ela enxergava o mundo. Sua própria casa transformada em ateliê torna-se uma imagem particularmente significativa: não existe uma fronteira rígida entre criação e cotidiano. Acrílico, metal, pedras, conchas e materiais reaproveitados deixam de ser simples ferramentas para assumir novas formas, texturas e significados. O documentário consegue transmitir essa liberdade sem transformar a artista em uma personagem distante ou excessivamente reverenciada.

As imagens de arquivo são fundamentais para isso. Os registros de Amelia trabalhando aproximam o espectador de um processo criativo que entrevistas e depoimentos, sozinhos, dificilmente conseguiriam reproduzir. Há um prazer especial em observá-la diante de suas obras, experimentando, manipulando e descobrindo. Essas imagens ajudam o filme a fazer aquilo que um bom documentário sobre arte deveria fazer: não apenas explicar a importância de uma obra, mas despertar a vontade de conhecê-la.

Goldsztejn também acerta ao contextualizar Amelia dentro de uma geração que transformou profundamente a arte brasileira. Sua passagem pelo círculo de Anita Malfatti, Hélio Oiticica, Lygia Pape, Waldemar da Costa e Vilanova Artigas ajuda a dimensionar sua importância, enquanto a experiência como educadora e a participação na construção da Universidade de Brasília ampliam o retrato para além do ateliê. O filme entende que sua trajetória também foi atravessada pela história do país, inclusive pela ruptura provocada pela ditadura militar.

Em alguns momentos, entretanto, Amelia Toledo: Lembrar de Não Esquecer assume uma estrutura mais convencional do que a personalidade de sua homenageada parece exigir. Os depoimentos de familiares, amigos e artistas são importantes, mas por vezes reiteram informações e elogios que o próprio contato com as obras já seria capaz de comunicar. Falta ao documentário um pouco mais de risco formal para acompanhar a ousadia de uma artista que passou a vida justamente questionando formatos e limites.

Ainda assim, existe sensibilidade na maneira como o filme evita transformar Amelia em uma figura monumental e inacessível. Sua trajetória aparece marcada por encontros, mudanças, descobertas e pela capacidade de continuar experimentando mesmo depois de décadas de carreira. Mais do que construir uma biografia definitiva, Goldsztejn oferece diferentes portas de entrada para compreender uma mulher que fez da arte uma forma de investigação contínua.

O resultado é um documentário delicado e estimulante, que cumpre especialmente bem sua função de aproximar o público de uma artista cuja relevância talvez ainda não seja proporcional ao tamanho de sua contribuição. Amelia Toledo: Lembrar de Não Esquecer poderia se permitir ser tão experimental quanto sua protagonista, mas encontra força justamente quando deixa que suas imagens e seus materiais falem por ela. No fim, fica a sensação de que lembrar Amelia significa também preservar aquilo que parece ter guiado toda a sua obra: a liberdade de olhar novamente para as coisas e descobrir que elas podem ser outras.

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