Antes de tudo, é impossível assistir Anatomia do Caos, dirigido por Dandara Ferreira, sem reviver um dos períodos mais dolorosos da nossa história recente. Sempre digo que não bastou enfrentar uma pandemia. Tivemos que enfrentar uma pandemia sob um governo federal marcado pelo negacionismo científico, pela negligência e pela desinformação. O resultado foi devastador: mais de 700 mil vidas perdidas no Brasil, muitas delas poderiam ter sido salvas com uma condução responsável da crise.
O documentário nos leva aos bastidores da CPI da Covid, instalada no Senado Federal em 2021 para investigar as ações e omissões do governo Bolsonaro durante a pandemia. Com imagens inéditas, registros da TV Senado, reportagens e depoimentos de parlamentares, especialistas e familiares das vítimas, o filme reconstrói um cenário que, por mais conhecido que seja, continua causando indignação e emoção.

O grande mérito de Anatomia do Caos talvez não esteja em revelar fatos novos. Quem acompanhou a pandemia e a CPI provavelmente reconhecerá muitos dos acontecimentos apresentados. A força do documentário está em não deixar que tudo isso seja esquecido. Em tempos em que a memória é constantemente disputada e os fatos são relativizados, o filme nos lembra da importância de preservar esse capítulo da história brasileira.
A narrativa evidencia como o negacionismo científico se transformou em política de governo. O documentário mostra a recusa em seguir recomendações sanitárias internacionais, os ataques ao uso de máscaras e às vacinas, a defesa do chamado “kit Covid”, com medicamentos sem eficácia comprovada, e a disseminação de informações falsas que colocaram milhares de vidas em risco. Também chama atenção para os ataques sofridos pela imprensa que, apesar de constantemente atacada, teve um papel fundamental ao informar a população e denunciar os erros cometidos durante a crise.
Mas ainda me parece que o aspecto mais importante do filme seja sua contribuição para a memória coletiva. Ao ouvir familiares das vítimas e revisitar os debates da CPI, o documentário humaniza números que, com o tempo, podem parecer apenas estatísticas. Cada uma das mais de 700 mil mortes representa uma vida interrompida, uma família marcada para sempre.

Nesse ponto, é impossível não lembrar da reflexão de Theodor Adorno sobre a necessidade de elaborar o passado. Depois dos horrores de Auschwitz, Adorno defendia que lembrar não era apenas um exercício de memória, mas um compromisso ético. Só enfrentando criticamente o passado é possível impedir que a barbárie se repita. Guardadas as devidas proporções históricas, Anatomia do Caos cumpre esse papel ao registrar um momento em que a ciência foi negada, a vida foi banalizada e a desinformação ocupou espaço nas decisões políticas.
Mais do que um documentário sobre a pandemia, Anatomia do Caos é um convite para lembrar. Lembrar daqueles que perderam suas vidas, daqueles que lutaram para salvar outras e, principalmente, lembrar das escolhas políticas que contribuíram para ampliar uma tragédia que já era, por si só, sem precedentes. Em um momento em que o país ainda debate responsabilidades e justiça, o filme reafirma que preservar a memória é também uma forma de defender a democracia e impedir que erros tão graves voltem a acontecer.








