Uma família disfuncional, um patriarca morto cercado por segredos e uma viagem atravessada por acontecimentos inexplicáveis formam uma premissa com potencial para um drama provocador, especialmente quando o realismo fantástico entra em cena. Em Ao Sabor das Cinzas, Taciano Valério reúne conflitos familiares, suspeitas criminosas e elementos de humor macabro em torno da morte de Seu Lauro, cuja partida desencadeia uma sucessão de revelações. A proposta promete explorar as contradições de uma família marcada por relações tóxicas e uma herança moral duvidosa. Entretanto, o filme encontra dificuldades para transformar essas ideias em uma narrativa coesa, deixando a impressão de que diferentes projetos foram reunidos sem que suas linguagens conseguissem estabelecer um diálogo consistente.
O principal obstáculo está na indefinição do tom. Há momentos em que a produção parece assumir deliberadamente o absurdo, permitindo que a presença do patriarca morto adquira contornos cômicos e grotescos. Em outros, porém, a narrativa exige que o espectador encare conflitos dramáticos e revelações criminosas com absoluta seriedade, embora a encenação frequentemente se aproxime da caricatura. Essa alternância poderia render uma tragicomédia mordaz, capaz de encontrar humor justamente na podridão das relações familiares, mas falta precisão para que as mudanças de registro funcionem. O resultado oscila entre o melodrama exagerado, a paródia involuntária e o suspense, sem encontrar uma identidade capaz de sustentar essas diferentes intenções.

A própria trama parece sofrer com a ausência de uma organização mais rigorosa. As revelações sobre os homens da família e os materiais comprometedores que vêm à tona deveriam conduzir a uma investigação progressiva dos segredos do patriarca. No entanto, informações importantes surgem sem preparação suficiente, enquanto outras situações deixam dúvidas que não parecem intencionais. As motivações dos personagens nem sempre são claras, e determinadas reações não encontram correspondência convincente na gravidade dos acontecimentos apresentados. Em vez de estimular a curiosidade, essas lacunas tornam difícil compreender a lógica interna da história. O mistério perde força quando o roteiro não oferece elementos suficientes para que o público conecte as pistas e perceba como cada descoberta transforma as relações entre os envolvidos.
A dimensão sobrenatural, por outro lado, contém algumas das possibilidades mais interessantes do filme. A figura de Seu Lauro, interpretado por Everaldo Pontes, mistura a condição de cadáver à vitalidade de um homem que continua interessado nos prazeres da vida, criando um contraste potencialmente divertido entre morte e desejo. O ator parece encontrar maior liberdade justamente nesses momentos, quando o absurdo não precisa ser disfarçado por uma aparência de realismo. O problema é que essa abordagem não se integra de maneira satisfatória aos demais conflitos. O filme parece não decidir se pretende utilizar o fantástico como uma extensão simbólica das relações familiares ou apenas como um recurso para produzir situações insólitas, e essa indecisão enfraquece até mesmo as cenas que poderiam funcionar isoladamente.
As limitações também aparecem na construção visual. A fotografia frequentemente deixa os ambientes internos escuros e sem profundidade, enquanto a direção de arte não consegue conferir aos espaços uma identidade que os conecte à história daquela família. A casa, o ambiente funerário e os demais cenários parecem pouco trabalhados, sem que essa aparência seja transformada em uma escolha estética deliberada. A montagem tampouco encontra um ritmo convincente: alguns planos se prolongam sem acrescentar tensão ou informação, e determinados cortes produzem uma sensação de descontinuidade que prejudica a fluidez das cenas. O orçamento restrito pode impor desafios consideráveis a uma produção, mas não explica sozinho essas dificuldades, que envolvem principalmente a falta de unidade entre as decisões criativas.

Há ainda um problema de condução dos atores e de construção dos diálogos. Algumas falas parecem escritas para provocar impacto imediato, mas soam artificiais dentro das situações em que são inseridas. Outras apostam em piadas que não encontram apoio no ritmo ou na encenação, criando um desconforto que dificilmente se converte em humor. A crítica à hipocrisia familiar e aos comportamentos abusivos poderia ganhar força por meio de personagens mais complexos e de uma ironia melhor calibrada, mas o exagero nem sempre vem acompanhado da consciência necessária para transformar a caricatura em comentário social. Mesmo com profissionais experientes envolvidos, o conjunto transmite a impressão de que as diferentes áreas da produção trabalharam sem uma direção estética suficientemente unificadora.
Ao final, Ao Sabor das Cinzas decepciona sobretudo porque sua premissa sugere uma obra mais ousada e provocadora do que aquela que efetivamente chega à tela. A combinação de segredos familiares, humor sombrio e realismo fantástico poderia resultar em uma narrativa instigante sobre a herança da violência e as máscaras que sustentam famílias aparentemente respeitáveis. Em vez disso, a falta de coerência tonal, as fragilidades do roteiro e as escolhas técnicas pouco articuladas impedem que essas ideias alcancem o impacto desejado. Existem lampejos de irreverência e momentos em que o absurdo oferece um caminho promissor, mas eles permanecem isolados em uma construção que nunca encontra o equilíbrio entre suas ambições. O que poderia ser um retrato mordaz de uma família em decomposição acaba se tornando um filme tão desorientado quanto os segredos que tenta desvendar.







